Seguindo os animais

Seguindo os animais
Dialogando
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Lembro-me que aos quatro anos de idade avistei do quintal da minha casa um cão andando na calçada da rua de cor caramelada e ele preencheu instantaneamente os meus olhos ingênuos de encantamento.

Lembro-me que aos quatro anos de idade avistei do quintal da minha casa um cão andando na calçada da rua de cor caramelada e ele preencheu instantaneamente os meus olhos ingênuos de encantamento.

A doçura dele não estava só estampada na cor e logo surgiu em mim a idéia de trazer o simpático e futuro amigo para casa. Naquele momento a propaganda quase emblemática de que o cão é o melhor amigo do homem foi substituída, pelo adulto que me acompanhava, por frases amedrontadoras sobre aquele cão. Na autoridade e manipulação do adulto a uma criança, o animal se transformou em tudo, menos em possibilidade de relacionar-se com o outro, em amar, em aprender com as diferenças, em ser e ter um amigo confiável e principalmente de reconhecer de que aquele animal estava na rua não porque gostava dela, mas por ser fruto de abandono. O cão precisava de um lar e um tutor e mesmo que não houvesse condições de acolhê-lo eu me pergunto até hoje que valores são passados para uma criança sobre os animais?

Na minha infância eu por vezes entrava em conflito comigo mesmo sobre os sentimentos de amor e admiração pelos animais e a introjeção de valores sobre o que eram os animais e o que podíamos fazer com eles. Muitas vezes os animais viravam brinquedos na minha mão e no exemplo e autorização do adulto eu me apoiava para me livrar do conflito moral que eu mal conseguia identificar. A situação melhorou um pouco aos dezessete anos de idade, quando eu cheguei em casa e disse a minha mãe: ¨tomei uma decisão e pretendo seguí-la, a partir de hoje eu não como mais carne.¨ Tudo parecia ter ficado novo naquela hora até a forma como eu captei a expressão facial da minha mãe. Todos indagavam as razões para tal atitude e eu não querendo ser taxado de sentimentalista por alguns meses disse que era por motivos de saúde que havia me tornado vegetariano ovolacto.

Entretanto, com o passar do tempo conversei mais profundamente comigo mesmo e descobri que a minha principal razão era o amor pelos animais e por saber racionalmente que haviam outras fontes protéicas boas ao meu corpo sem serem da carne e que não custariam a vida de um animal. Foi um período onde internamente eu não matava diariamente um boi, um frango ou um peixe, mas eu matava em mim mesmo cada preconceito introjetado desde a infância sobre os animais. Essa não foi uma tarefa fácil, porque nas relações sociais, que incluem o ato de alimentar-se, as pessoas e muitas vezes eu mesmo dávamos mais importância as prioridades e interesses humanos. Dentro dessa perspectiva ser um vegetariano ou ser um onívoro era somente uma questão de escolha pessoal a ser respeitada.

No decorrer dos meus muitos anos de vegetarianismo ovolacto o pensamento antropocentrista de muitas pessoas de meu convívio tentou invadir o meu íntimo no território habitado pelos animais. Mas, eu continuei os seguindo ainda que de longe como se apenas ser vegetariano ovolacto fosse o suficiente ...fosse estar fazendo a minha parte dentro do dever de tutelá-los. Até que um dia, eu fui tomado de incertezas e de grande frustração: algo estava errado e eu não estava mais indo na direção dos animais. Comecei a ouvir os alertas de pessoas que se nomeavam como abolicionistas veganas, verdadeiras representantes e vozes dos animais. Precisei investigar, já que me considerava verdadeiramente amigo dos animais e não havia mudado os meus hábitos alimentares por mais de 20 anos à toa.

O que a princípio poderia parecia radicalismo, fanatismo de um grupo de pessoas sobre a condição dos animais era na verdade apenas uma pequena amostra da situação de exploração dos animais pelos humanos. Resolvi investigar ainda mais, ter outras fontes de informação e cada vez que eu procurava esclarecimento mais eu percebia o quanto eu não estava ajudando os animais sendo apenas vegetariano ovolacto. Por que? Minha investigação descobriu que existia mais sofrimento em um copo de leite e em um ovo do que em um pedaço de bife e isso foi muito desolador para mim. Foi frustrante ter percebido que por muito tempo por não comer carne eu automaticamente aumentava o consumo de derivados de leite e ovos e isso significava mais sofrimento e escravidão animal.

Tive então que tomar uma outra decisão importante na minha vida e me preparei inclusive para uma série de sacrifícios alimentares como não comer mais chocolate ou sorvete. É que na investigação feita anteriormente, eu me concentrei na exploração animal e ela por si só já parecia suficiente para a minha mudança de vegetariano ovolacto para vegano, mas felizmente depois fiquei sabendo que havia chocolate e sorvete veganos deliciosos para se comer. Entretanto, o momento de maior felicidade foi quando eu senti o quanto mais próximo eu estava dos animais não humanos. Depois de ter me tornado vegano, eu os estava vendo e seguindo de perto. Eu os via de outra forma e cada vez, mas claramente. Contudo, no meu percurso na direção dos animais, eu tropecei no dissimulado e confuso bem-estarismo e fui vítima de algumas de suas armadilhas. Essas armadilhas retardaram o meu percurso e custaram-me certo esforço e pensamento crítico extra, mas eu acredito que atualmente eu tenho conseguido arrancar essas armadilhas do caminho e vestir ou incorporar os verdadeiros conceitos da abolição animal.

O veganismo abolicionista deixou os meus passos mais firmes e confiantes e eu me tornei não só um vegano como um ativista. A situação dos animais é tão terrível que eu quero conversar a respeito disso com as pessoas e dar a elas o acesso a informação e oportunidade para uma percepção mais consciente das questões animais. Para isso é necessário investir em educação vegana. Uma das coisas mais importantes que eu aprendi no meu ativismo é que temos que fazer trabalho de base sobre o veganismo, porque ele representa a queda imediata da demanda de produtos de origem animal. Para cada nova pessoa vegana haverá menos consumo de carne, leite e ovos e menos lucro para os exploradores de animais. Atualmente eu tenho percebido que precisamos evidenciar todas as formas de exploração animal e não apenas combater uma delas dando impressão ao leigo que uma forma de exploração é mais aceitável moralmente do que outra. Por ex. se participamos de uma manifestação contra o uso de peles, não podemos falar sobre a exploração da pele da raposa e não falar ou ocultar a exploração do couro da vaca, porque ambos os animais são explorados e ambos os animais merecem o nosso respeito e temos que ser coerentes em nossos propósitos, senão não teremos a credibilidade do público ou sociedade.

Muitas dessas idéias que eu falei até agora vieram dos escritos do prof. Gary Francione. Depois de ler os livros de Peter Singer (Libertação Animal) e de Tom Regan (Jaulas Vazias) descobri esse autor indicado por uma amiga ativista. Francione foi um verdadeiro amigo meu sem nunca ter me conhecido, assim como foi aquele cão caramelado de olhar meigo que me fez despertar para a beleza dos animais não humanos. Eu devo muito a Francione e talvez nós todos ativistas abolicionistas veganos. Esse professor, advogado e filósofo dos direitos animais sob cunhar o termo Esquizofrenia Moral e desenvolver a Teoria dos Direitos Animais evidenciando o conceito especista de propriedade em relação ao animal e mostrando claramente porque animais têm direitos e valor inerente.

Mesmo com todos esses ¨achados¨ na minha vida, eu ainda me sinto aprendendo sobre abolição da escravidão animal e quero usar todo esse conhecimento adquirido e sentimento de justiça para ajudar cada vez mais os animais não humanos. Eu espero cumprir essa tarefa ao lado dos animais não humanos, e de tanto segui-los, alcançá-los em toda a sua plenitude e realmente incluí-los na minha esfera de consideração moral.  

Luís Martini