Perz fala sobre abolição, veganismo e a obra de Gary Francione

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Esta entrevista é sobre ideias abolicionistas, e são as ideias que devem ser discutidas antes que a ação progressiva possa ser estabelecida.

Esta entrevista é sobre ideias abolicionistas, e são as ideias que devem ser discutidas antes que a ação progressiva possa ser estabelecida.

Uma vez que muitas dessas ideias, que são relevantes para as vidas e mortes de outros animais, vêm do trabalho de Gary Francione, Jeff Perz sente-se obrigado a citar este trabalho. No entanto, ele diz que também acrescentou seus próprios argumentos e comentários. Ele aceita ou rejeita os textos de Francione por seus próprios méritos, a validade dos argumentos e a solidez das evidências. Ele convida a todos para fazer o mesmo com uma mente aberta.

Jeff Perz acha que muitos bem-estaristas possuem bons corações e boas motivações, são muito apaixonados e trabalham arduamente. Discutir a teoria e prática abolicionista, não confronta os bons motivos e a dedicação dos ativistas, mas o efeito real que esse ativismo tem sobre animais não humanos. Perz sustenta que procurar entender a teoria e a prática abolicionista vale o esforço.

Coincidentemente, a tese de mestrado de Jeff Perz é intitulada Core Self-Awareness and Personhood (Autoconsciência Essencial e Pessoalidade) e argumenta que animais não humanos não deveriam ser propriedade, usando argumentos filosóficos que são radicalmente diferentes dos argumentos de Francione. Aqui, ele fala ao Abolitionist-Online pela primeira vez.

Pergunta: O que significa ser vegano para você, Jeff?

Jeff Perz: Ser vegano é a concretização da teoria abolicionista. Como um ativista dos direitos animais, com visão realista e incremental , eu coloco esta teoria em prática todos os dias através da promoção do veganismo ético das maneiras mais eficientes e criativas que eu consigo pensar. No dia em que uma massa crítica da população humana do mundo for vegana, por respeitar os direitos dos outros animais, será o mesmo dia em que a vivissecção, o comércio de peles, os circos que usam animais não humanos e a caça serão abolidos. A razão é simples. O consumo de produtos de origem animal como alimento constitui a esmagadora maioria do sofrimento e da morte que são infligidos aos animais não humanos. Fazer uma mudança na sua dieta é uma coisa muito pessoal, que envolve quebra de velhos costumes e hábitos.

Psicologicamente, se alguém acredita que os outros animais têm direitos básicos e coloca essa convicção em prática ao não consumir animais, as probabilidades são de que ela ou ele também não irá ao circo ou usará peles. Por outro lado, se alguém continua a consumir produtos de origem animal e para de usar peles, porque as tendências do dia dizem que a pele é cruel, ele ou ela provavelmente não terá nenhum pensamento sobre a compra de produtos testados em animais, e começará a usar pele novamente quando as tendências sobre o significado de "crueldade" e sobre a liberdade do consumidor mudarem de novo. Isto, na verdade, tem acontecido a nível social desde a década de 80 até o presente. Similarmente, se alguém torna-se vegano, principalmente, por razões de saúde ou ambientais, ela ou ele pode "trapacear" ou voltar completamente aos seus hábitos anteriores, assim como aqueles em dietas de emagrecimento que ocasionalmente se tratam ou não as mantêm, como médicos que fumam tabaco e como aqueles preocupados com o meio ambiente que fazem o melhor que podem, mas às vezes falham em reciclar absolutamente tudo ou esquecem de apagar a luz toda vez que saem de uma sala. Este padrão não é uma regra rígida, mas geralmente vale para a maioria de nós. (O padrão vale menos para o tipo raro de pessoa que decide se tornar ativista.) Para ser duradouro, ações destinadas a respeitar animais não humanos devem começar com o veganismo e ser motivadas pelo respeito ético e não pelas tendências ou autointeresse (pela nossa saúde ou pelo nosso benefício da beleza e biodiversidade da natureza). Então, promover o veganismo ético, de forma eficiente e criativa, é a maneira melhor e mais prática de viver a teoria abolicionista.

Pergunta: A abolição é irrealista?

Jeff Perz: Colocar a abolição em prática através da educação vegana é o método mais realista do ativismo pelos direitos animais que temos. Se em vez de encorajar o veganismo ético, eu incentivei o (ovolacto) vegetarianismo, o consumo de carne "humanitária" ou o consumo de veggie hambúrgueres no McDonald´s, eu violei os direitos dos animais não humanos explorados para esses fins e eu perpetuei ainda mais a existência das indústrias de exploração. Da mesma forma, se ao invés de incentivar apenas as normas de trabalho, eu incentivo a compra de diamantes da África do Sul, e não da África central, porque os diamantes da África central financiam a guerra genocida e os diamantes provenientes da África do Sul não fazem isso, eu violo os direitos dos mineiros sul-africanos, que podem ser crianças, escravos aprisionados, forçados a respirar poeira tóxica, e eu perpetuei a existência da opressora indústria de diamantes sul-africana. É irrealista educar o público efetivamente e incentivar um boicote contra esses diamantes? Não na experiência de grupos de direitos humanos. Os seres humanos têm direitos. A escravidão humana institucionalizada foi, e deve continuar a ser, abolida. Por que seria diferente com os animais não humanos? Dizer que deveria ser diferente é negar os seus direitos e perpetuar a sua exploração por um futuro indefinido. Na minha experiência, é muito realista promover efetivamente o veganismo ético. Este é o ativismo abolicionista.

Pergunta: Como você faz as suas campanhas a partir de uma perspectiva abolicionista, Jeff?

Jeff Perz: Eu tenho usado aparelhos audiovisuais portáteis que são colocados nas ruas para mostrar ao público imagens de abatedouros, fazendas, locais de alimentação e de pesca. Enquanto isso, eu distribuo folhetos feitos por mim com uma mensagem abolicionista, e respondo perguntas a partir de uma perspectiva abolicionista, enquanto incentivo o veganismo ético como forma de colocar a teoria abolicionista em prática. Em particular, resumi o argumento abolicionista encontrado no excelente livro de Gary L. Francione, Introduction to Animal Rights: Your Child or the Dog?. Se depois que uma argumentação clara, racional e convincente sobre direitos animais e veganismo foi apresentada, um membro do público diz algo como, "o que você diz faz sentido, mas eu nunca poderia ser vegano", e persiste com este opinão não racional, eu nunca iria encorajar o (ovolacto) vegetarianismo, a carne "humanitária" ou o consumo de veggie hambúrgueres no McDonald´s. Pelo contrário, eu diria, "Aqui está o argumento a favor dos direitos animais e da abolição."

Se você aceita que os outros animais têm direitos básicos, isso significa ser vegano agora. Mas se por qualquer motivo, você não pode aceitar este princípio moral no momento, por que não tentar ser vegano toda segunda-feira? Depois de dois meses ou outro período, ser vegano toda segunda-feira vai se tornar muito fácil e um hábito. Depois, você pode aumentar o número de dias que você é vegano, no seu próprio ritmo e de acordo com sua própria capacidade, até que um dia você se torna vegano mesmo sem perceber. Durante todo esse tempo e que conduza a esse ponto, você pode considerar o argumento em favor dos direitos animais e como isto leva ao veganismo. Se você escolher, depois de pensar nisso com cuidado e decidir por si mesmo, você consegue se tornar vegano. Se tudo isso é feito com a firme intenção de eventualmente aceitar a ética dos direitos animais, e como um objetivo que você definiu para si mesmo, então este método de mudança pode ser certo para você. Ou, você pode considerar respeitar os direitos animais imediatamente e se tornar vegano agora. A questão é que você pode pensar criticamente por si mesmo e chegar a sua própria conclusão ponderada.

Ao contrário das campanhas bem-estaristas prejudiciais, expressar as coisas na forma como acabo de descrever, faz uma clara distinção entre a ética de respeitar os direitos básicos dos outros animais, e a psicologia de colocar essa ética em prática. Eu tenho mantido a minha integridade através da afirmação clara de que eu apoio a ética dos direitos dos animais, enquanto a pessoa com quem eu estou falando persistentemente a rejeita, apesar de imagens fortes e argumento abolicionista persuasivo terem sido apresentados. Tendo rejeitado a ética dos direitos animais, não digo ao indivíduo com quem eu estou falando para que consuma laticínios, ovos "de animais criados soltos" e mel; algo que violaria os direitos dos animais não humanos e perpetuaria a exploração deles. Em vez disso, eles são encorajados a pensar criticamente, e a opção de eventualmente deixar de consumir todos os produtos de origem animal é apresentada.

Durante este tempo, o indivíduo ainda está violando os direitos dos animais não humanos e eu deixo isso claro (de uma forma respeitosa, sensível). No entanto, o resultado é veganismo e direitos animais, não a exploração perpétua, miséria e morte que faz o público se sentir bem consigo mesmo e depois esquecer, porque ela é rotulada como "humanitária" por ativistas bem-estaristas e pelos peritos em relações públicas da indústria da carne. Por outro lado, expressar as questões de forma abolicionista - se é para alguém que persistentemente reluta em adotar os direitos animais ou para alguém que vê a lógica do argumento abolicionista racional e é movido por empatia de imediato - é extremamente efetivo. Na minha experiência, membros do público em geral respondem muito bem a elas e muitos são movidos a se tornar veganos imediatamente. Desta forma, inúmeros indivíduos são ajudados a abraçar os direitos animais. Isso está levando a um mundo no qual a exploração dos animais não humanos está sendo abolida e não regulamentada.

 Pergunta: Se a abolição é colocada em prática através da educação vegana, como você sugere, quando pode-se esperar a abolição?

Jeff Perz: Para o ativista bem-estarista, o método prático que eu propus é muito lento. Quanto tempo vai demorar antes que uma massa crítica de veganos éticos seja alcançada e, como resultado, a abolição seja concretizada? Eu não sei, talvez 50 anos ou talvez 500. Eu sei que na Austrália para cada novo vegano na faixa de 20 anos, que vive até os 80 anos, cerca de 1.135 mamíferos e aves terão sido salvos (além de muitos animais aquáticos, abelhas, e assim por diante).

Este valor foi obtido pela análise de dados do Australian Bureau of Statistics, que é responsável por exportações de carne e supõe que 10% da população já é vegetariana. Agora compare os mais de 1.135 animais não humanos salvos por cada novo vegano com o número que os ativistas do bem-estar animal têm alcançado. Ao contrário da indústria do bem-estar animal, que mantém o número de animais não humanos explorados exatamente o mesmo e meramente aborda os detalhes de como dezenas de bilhões de animais não humanos são torturados e mortos, os mais de 1.135 animais não humanos salvos por cada novo vegano de 20 anos de idade representa animais não humanos individuais que nunca são trazidos à existência, confinados, submetidos a dor ou mortos de forma alguma. Isto representa abolição.

Francione salientou que apesar das leis de bem-estar animal existirem há quase 400 anos e das incontáveis leis bem-estaristas aprovadas nos últimos anos, tanto o número de animais não humanos explorados e mortos como a gravidade da exploração continuam a aumentar drasticamente. Francione argumentou, conclusivamente, que tais leis são contraproducentes e só servem para garantir que animais não humanos sejam sempre explorados das formas mais abomináveis que se possa imaginar, desde que a exploração seja conduzida de uma forma economicamente eficiente. Por outro lado, é muito mais poderoso e eficaz defender a teoria dos direitos animais e o veganismo como forma muito prática de viver aquela ética. Francione notou que educar uma pessoa por vez, é a melhor forma de mudança social incremental. Isto é o que nós, ativistas de direitos animais, deveríamos estar fazendo: trabalhando no sentido de criar um mundo vegano. Assim, colocar a teoria abolicionista em prática, não só é prático, mas é algo essencial para os ativistas se engajarem.

Pergunta: Os textos referem-se à realidade social ou eles são apenas um reflexo dela?

Jeff Perz: Se você está falando de textos abolicionistas como os de Francione, eles referem-se à realidade social, no sentido que, aspectos desses textos descrevem o estado atual das coisas referentes aos direitos animais e ao ativismo bem-estarista, lei e filosofia. Textos abolicionistas certamente não refletem a realidade social, pois os dois são diametralmente opostos um ao outro. Francione argumenta que os animais não humanos têm o direito moral básico e pré-legal de não ser propriedade devido à senciência por si só, e isso implica que toda exploração institucionalizada de animais não humanos deve ser abolida e não apenas regulamentada. Ao contrário, a realidade social atual é que animais não humanos são escravos, não têm direitos legais e têm seus direitos morais violados diariamente pelas instituições exploradoras. Se você estiver falando de textos bem-estaristas como os de Peter Singer, Steven Wise e Matthew Scully, eles apenas refletem a realidade social deplorável atual. Apesar de todos estes textos bem-estaristas, de uma forma ou de outra, dizerem que defendem que algum tipo de mudança deva ocorrer, seguindo suas diretrizes de forma consistente, eles falham em efetuar qualquer mudança significativa na atual realidade social, e isso é devido a suas falhas teóricas.

Pergunta: Por que os direitos animais não podem superar suas contradições internas por meio de reformas bem-estaristas excedendo a exploração capitalista e a hegemonia econômica?

Jeff Perz: O fenômeno que é popularmente chamado de "movimento de 'direitos' animais " não é um movimento de forma alguma, porque ele simplesmente reflete o status quo e, portanto, é mais apropriadamente chamado de indústria do bem-estar animal. A maior contradição interna desta indústria é o que Francione chama de novo bem-estarismo. Novos bem-estaristas aceitam que animais não humanos têm direitos básicos na teoria e eles, portanto, têm o objetivo de abolir toda a exploração de animais não humanos. No entanto, os novos bem-estaristas também acreditam que as reformas bem-estaristas, como tornar as gaiolas maiores, conduzirão à gaiolas vazias e à abolição. Isto é contraditório, porque as raízes bem-estaristas nunca podem levar ao fruto da abolição. Francione explica a razão disso: já que animais não humanos são propriedade, quaisquer mudanças realmente benéficas em relação a como eles são tratados, forçaria os proprietários a valorizar a sua propriedade animal não humana de forma diferente do que o mercado permite.

Desta forma, as únicas mudanças que serão, de qualquer modo, permitidas, são aquelas que maximizem o valor econômico da propriedade animal não humana para os proprietários. Obviamente, este escopo extremamente restrito de mudança deve necessariamente estar muito aquém da abolição. Assim, os novos bem-estaristas estão condenados a nunca atingir a meta que pretendem ter. Depois de fazerem isso por alguns anos, parece que eles subconscientemente percebem a contradição e falam menos de seu objetivo original completamente, tornando-se bem-estaristas tradicionais, que buscam "reforma" para seu próprio bem. Assim, na minha opinião, a diferença entre o bem-estarismo tradicional e o novo bem-estarismo é pouca ou inexistente. Talvez possamos aprofundar e compreender melhor o assunto ao olhar para questões específicas dentro da indústria do bem-estar animal.

Uma observação que eu gostaria de fazer, é que há uma forte ligação entre a exploração capitalista e a hegemonia econômica e a exploração dos animais não humanos, que são mercadorias dentro deste sistema. Embora a ligação seja forte, não é uma ligação necessária. Ou seja, é teoricamente possível ter uma sociedade não capitalista em que os recursos são distribuídos com justiça entre os seres humanos e todos os seres humanos têm controle sobre suas próprias vidas, mas que, no entanto, explora animais não humanos através do consumo de carne e outras atividades. Tal sociedade excluiria injustamente os animais não humanos da comunidade moral, mas, no entanto, poderia funcionar de uma forma equitativa para os seres humanos. É claro que eu não defendo isto. Eu defendo a abolição de toda exploração de animais não humanos e humanos.

Pergunta: O consumo de carne está aumentando e não diminuindo em todo o mundo. Qual é a evidência que mostra que a reforma bem-estarista pode levar à libertação dos animais criados para alimentação? Não é verdade que o bem-estarismo consolida cada vez mais a exploração de animais, porque a intenção do bem-estarismo nunca mostrou o tipo de mudança que a libertação requer?

Jeff Perz: Não há evidência de que o bem-estarismo conduza à libertação dos animais não humanos, que são usados para alimentação. Há, no entanto, muitas evidências empíricas de que o bem-estarismo leva a um aumento tanto do número de animais não humanos explorados como da gravidade da exploração dentro das indústrias de carne, ovos e laticínios. Essa evidência empírica é detalhada no livro de Francione chamado Rain Without Thunder: The Ideology of The Animal Rights Movement.

O bem-estarismo fortalece mais a exploração de animais não humanos por um motivo muito simples. Eu ilustrarei este motivo através do seguinte exemplo. Quando o McDonald´s anunciou que aceitaria somente os ovos de fornecedores que aumentassem um pouco o tamanho de suas gaiolas, nas quais as galinhas são confinadas, o porta-voz do McDonald´s citado em um comunicado de imprensa anterior (agora suprimido) afirmou que foram dois os motivos da mudança. Em primeiro lugar, as gaiolas um pouco maiores irão reduzir a síndrome de fadiga das poedeiras de gaiola e, segundo, reduzirão a possibilidade de propagação de doença para os humanos. Estas duas coisas fazem com que o McDonald´s economize dinheiro, e este é o verdadeiro significado de "humanitário".

Como Francione comentou, os animais não humanos são propriedade, propriedade não pode ter seus próprios interesses independentes dos interesses dos proprietários e outras partes interessadas, e os humanos têm o direito de possuir, usar e se beneficiar de sua propriedade. Devido a isso, qualquer redução no sofrimento que os animais não humanos experienciam, como um resultado de uma regulamentação do bem-estar (que, naturalmente, é boa), deve ser necessariamente um mero efeito colateral da finalidade principal de aumentar o valor econômico da propriedade animal não humana. Então, toda vez que uma regulamentação bem-estarista é colocada em prática, é ainda mais provável que animais não humanos serão sempre explorados das formas mais horrendas que se possa imaginar, desde que essas formas não sejam economicamente um desperdício.

A redução do sofrimento, que resulta de gaiolas um pouco maiores, é compensada pelo fato de que a regulamentação do bem-estar sistematiza e enraiza mais o status do animal não humano como propriedade, garantindo assim que ela ou ele estará sempre sujeito ao sofrimento severo, ao confinamento e à morte, contanto que aquele sofrimento e morte sejam necessários para a eficiência econômica. Assim, existem, por exemplo, leis de bem-estar que especificam que animais não humanos devem receber alimentos e água suficientes, porque animais não humanos sedentos, desidratados - na maioria das circunstâncias - não constituem escravos rentáveis e bons. Leis de abate humanitário asseguram que as linhas de desmontagem sejam executadas rapidamente e sem problemas, maximizando o lucro. Mas dê uma olhada em qualquer matadouro que segue as leis meticulosamente. A dor, angústia e sofrimento são imensos e as taxas de morte são cada vez maiores. É por isso que o bem-estarismo enraiza cada vez mais a exploração animal.

Pergunta: Por que o movimento não se perguntou: Será que estamos realmente trabalhando em direção à abolição, se estamos fazendo a exploração parecer mais "humanitária"?

Jeff Perz: Como você pode ver a partir do que acabamos de discutir, "parecer" é a palavra-chave. Mesmo nas supostas fazendas de ovos "de galinhas criadas soltas" e de leite, as condições variam muito e os animais não humanos são sempre mortos quando sua produção diminui. Além disso, "humanitário" é implicitamente definido como aquilo que maximiza o lucro. Quando a escravidão humana existia na América, havia escravos que trabalhavam como servos para as famílias mais ricas do norte. Alguns desses escravos foram tratados muito bem e pode ter havido amor e afeto mútuo genuíno entre o escravo e o proprietário, com o escravo sendo considerado um membro da família. No entanto, a escravidão "feliz" ainda é escravidão: o escravo é impotente para mudar a sua situação, sem qualquer autonomia.

Tanto o servo-escravo bem tratado como o cão da família bem tratado, que foi comprado em uma loja de animais, estão sendo usados para uma finalidade específica; limpar a mansão e companheirismo, respectivamente. Esses propósitos são propícios para os escravos não sofrerem muito. No entanto, se o objetivo é usar um escravo humano na prospecção de ouro ou usar um cão escravo para tomar conta de um estacionamento durante a noite, o escravo está sujeito ao sofrimento intenso.

Seja qual for a finalidade da exploração, a causa subjacente permanece a mesma, ou seja, o status dos animais não humanos como propriedade. Assim, enquanto fazendas de "animais criados soltos" e criadores de animais de estimação existirem - e, portanto, desde que animais não humanos permaneçam como propriedade - fazendas industriais que produzem (monetariamente) comida barata para as massas, e a vivissecção realizada em cães, continuarão necessariamente num futuro indefinido. Novamente, a condição de propriedade, que é a base tanto da exploração de baixo sofrimento como a exploração de alto sofrimento, faz com que os dois tipos de exploração existam. Assim, os ativistas bem-estaristas que fazem com que a exploração pareça mais "humanitária", não estão trabalhando em prol da abolição e não estão ajudando animais não humanos de forma alguma. Por outro lado, os ativistas de direitos animais, que incentivam o veganismo ético, estão criando um mundo vegano, um indivíduo de cada vez.

A pergunta, "Fazer com que a exploração pareça" humanitária " conduz à abolição?", não foi feita pela indústria do bem-estar animal por várias razões. Primeiro, o problema da escravidão dos animais não-humanos é tão imenso que é intuitivamente atraente ser bem-estarista. Porém, após uma segunda olhada, este apelo inicial desaparece pelas razões que já discutimos. Em seguida, depois que um ativista intuitivamente considerou atraente o bem-estarismo e, em seguida, passa a dedicar tempo e esforço no ativismo bem-estarista, pode ser doloroso reconhecer que essas ações foram, na verdade, prejudiciais para os animais não humanos, e mais fácil ignorar a questão totalmente. Em terceiro lugar, com grandes organizações bem-estaristas tendo adotado esta estrutura, a primeira coisa frequentemente apresentada aos ativistas jovens é o bem-estarismo desprovido de qualquer recurso para o pensamento crítico. Em quarto lugar, estas mesmas grandes organizações bem-estaristas obtêm uma renda imensa ao alinharem-se com o poder das corporações e do status quo e não querem perder essa renda. Quinto, como Francione apontou, muitos líderes da indústria de bem-estar animal não são veganos e, é claro, não têm uma perspectiva ou objetivo abolicionista. Sexto, os movimentos sociais reais não são primariamente alcançados por meio de líderes, mas sim através de resistência da massa popular e não cooperação.

Pergunta: Você apoia táticas de confronto para a libertação animal ou é o próprio movimento uma necessidade tática?

Jeff Perz: O que é comumente chamado de "movimento de 'direitos' animais " é, como já argumentei, realmente um fenômeno contraproducente, que é gravemente prejudicial para os animais não humanos. Como tal, é mais apropriadamente chamado de indústria do bem-estar animal. Esta indústria enfraquece ativamente os ativistas dos direitos animais, e as táticas eficazes, éticas que eles empregam. Então, não; o que é comumente chamado de "Movimento" está longe de ser uma necessidade tática, é um sério obstáculo tático.

Quanto as táticas confrontacionais, eu não apoio jogar tinta vermelha em mulheres idosas vestindo casacos de pele. Pois, se nosso objetivo é a abolição, tais ações têm o efeito oposto; fechando suas mentes ou temporariamente controlando o seu comportamento através do medo. Eu prefiro entender a necessidade de beleza do público que usa pele, fazer com que esse público entenda a minha necessidade de respeito, e conseguir que as nossas duas necessidades sejam atendidas através da rejeição das peles, a favor de uma peça advinda da não exploração. Além disso, os humanos também são animais e, como tais, os ativistas dos direitos animais não podem violar os direitos humanos.

Como eu disse anteriormente, eu levei imagens reais da exploração de animais não humanos diretamente ao público. Se eu apoio esta tática ou não, depende muito de como ela é feita. Se for acompanhada de propaganda bem-estarista, como é a prática comum, eu me oponho a tática de usar imagens reais. Eu vi por mim mesmo o impacto destrutivo que ela tem. O público vê as imagens horríveis, é afetado por elas e diz: "Oh, eu não acredito, mas alguma coisa não pode ser feita?" Se a resposta a esta pergunta é "Sim, assinem esta petição, assine este cheque, escreva para o seu representante do governo para aprovar esta lei e compre cadáveres "humanitariamente" assassinados", então o público participa.

Todos ficam tão aliviados que algo pode ser feito; eles não tem que assumir responsabilidade pessoal e se tornar vegano e eles podem rapidamente esquecer. Como argumentei, nada muda quando o público tem essa atitude generalizada e a exploração de animais não humanos continua a crescer. Por outro lado, se as imagens reais são acompanhadas por uma mensagem abolicionista, como a que foi discutida anteriormente, então, o efeito é muito positivo. Uma atmosfera calma, sóbria, respeitosa é criada em que membros do público pedem folhetos ao ativista e responde suas perguntas. Inúmeras pessoas são ajudadas a compreender os direitos animais e a aceitar uma forma de vida vegana. Eu apoio inteiramente esta tática não violenta e bem sucedida.

Pergunta: Quando o movimento radical pelos direitos animais começou, ele reformulou uma nova maneira de compreender a relação da humanidade com os animais não humanos. Esta nova maneira de pensar tinha intenção de criar uma comunidade política, não especista, e ampla no mundo inteiro e ainda não criou. Como o movimento retorna à esse caminho?

Jeff Perz: Essa relação que você se refere é de respeito: simplesmente deixando os outros animais em paz. Pare de produzí-los, usá-los para os nossos inumeráveis propósitos, confinando-os e matando-os. No final de um movimento de direitos animais bem sucedido, haveria apenas animais não humanos vivendo livremente nos seus ambientes tranquilos, naturais. Como ativistas, podemos criar este mundo incentivando o veganismo ético. Podemos criar uma comunidade política, não especista, em torno do nosso ativismo ao discutir temas como nós fizemos hoje. O público precisa de educação vegana. Novos veganos e ativistas veganos precisam de educação abolicionista. É assim que vamos retornar ao caminho. Considerando esta revista em especial, eu sugiro que sejam entrevistados apenas abolicionistas ou, se bem-estaristas (seja da indústria de carne ou da indústria de caridade do bem-estar animal) forem entrevistados, então as entrevistas deveriam ser colocadas no contexto de um debate com um verdadeiro abolicionista, onde cada debatedor possua um espaço de texto igual. Caso contrário, como vamos criar essa comunidade política não especista de ativistas que você menciona? Sugiro entrar em contato com grupos abolicionistas em número crescente, tais como a International Vegan Association e o Gefran.

Pergunta: O socialismo (no sentido de um efeito humanizante amplo) às voltas com o debate reforma versus emancipação. Foi dito sobre o movimento dos direitos civis nos Estados Unidos, que se os afro-americanos estivessem à espera de libertação através das reformas bem-estaristas, eles ainda estariam sentados na parte de trás do ônibus. Quais são seus pensamentos?

Jeff Perz: Como Noam Chomsky salienta, a única revolução socialista que já conseguiu sucesso em grande escala foi a experimentação anarquista que aconteceu na Espanha antes da Revolução Espanhola, na qual um exército apoiado pelos nazistas alemães e italianos esmagou os anarquistas. Uma empresa de petróleo americana e o acomodativo governo dos Estados Unidos, por sua vez, ajudaram os nazistas em seus esforços para destruir a sociedade anarquista na Espanha. Enquanto durou, a sociedade anarquista de Espanha é a coisa mais próxima que tivemos com um efeito humanizante amplo, na qual os recursos são distribuídos de forma justa e cada um tem controle sobre suas próprias vidas. Antes e depois dessa época, os espanhóis (e todos os trabalhadores humanos em todos os lugares) foram e são "escravos assalariados", que nunca são verdadeiramente livres. Hoje, no entanto, os humanos não são escravos institucionalizados, como alguns de nós foram no passado um pouco mais distante.

Assim, mesmo neste ambiente capitalista opressivo em que vivemos, ainda temos direitos básicos (por exemplo, o direito de não ser propriedade), mas não temos direitos civis suficientes (por exemplo, o direito de ser bem compensado pelo nosso trabalho). O mesmo vale para o movimento dos direitos civis dos Estados Unidos, uma parte do qual envolveu a decisão de Rosa Parks de sentar-se na metade da frente de um ônibus, provocando, assim, o boicote aos ônibus de Montgomery para protestar contra a segregação racial. O direito (não básico) civil de sentar onde nos agrada num ônibus público, não é o mesmo que o direito básico de não ser propriedade. O direito de não ser propriedade foi conseguido no movimento abolicionista da escravidão humana. Como Francione argumenta, é logicamente impossível ter direitos não básicos, sem ter os direitos básicos. Reformas do sistema podem funcionar muito bem depois que direitos básicos foram alcançados. Isto é o que os anarquistas espanhóis e os ativistas dos direitos civis americanos fizeram, com grande efeito.

No entanto, num cenário muito diferente da escravidão humana - em que alguns humanos eram propriedade de outros humanos - teria sido absolutamente inútil defender medidas reformistas, como o direito de beber da mesma fonte de água como todos os outros. Pois, como Francione argumenta corretamente, as regulamentações sobre como os escravos recebem água devem necessariamente servir para uma, e apenas uma, finalidade, ou seja, a exploração eficiente dos escravos. Se a água dada a propriedade humana é de um determinado lugar, ou é dada apenas uma certa quantidade de água, esta decisão baseia-se, unicamente, em como isso afeta a produtividade e a rentabilidade daquela propriedade humana chamada de escravo. Exatamente a mesma coisa acontece com animais não humanos, que são propriedade legal. Se é dada pouca ou muita água a uma vaca, o lucro não será maximizado quando o cadáver da vaca for vendido. Uma vez que animais não humanos são propriedade legal, sem direitos básicos, as reformas bem-estaristas estão condenadas ao fracasso às custas trágicas de perpetuar o sofrimento grave e morte causados a esses animais.

Como uma observação, este é o lugar onde a distinção de Francione, entre os níveis micro e macro de mudança social, torna-se relevante. Se alguém é um trabalhador numa fazenda industrial, ou um ativista visitando uma fazenda industrial, é moralmente aceitável dar água a uma vaca com sede, nesse caso em particular. Contudo, se alguém é um ativista que está fazendo mudanças sociais ou macro-mudanças, então, trabalhar para fazer cumprir uma lei que diz que todas as vacas devem receber água suficiente é, na verdade, prejudicial para as vacas; isso garante que elas sempre sofrerão horrivelmente e morrerão, como já argumentei.

Pergunta: A PeTA diz que prefere a má publicidade do que nenhuma publicidade. Muitas pessoas do movimento criticaram as táticas da PeTA, pedindo-lhe que parasse de fazer com que os defensores dos direitos animais parecessem tolos e que colocassem o foco nos animais não humanos e na sua libertação novamente. Você acha que algumas campanhas atuais da PeTA são um constrangimento aos direitos animais?

Jeff Perz: A única possibilidade de achar que a PeTA é um constrangimento para os defensores dos direitos animais surge da falsa premissa de que a PeTA conhece o significado do conceito de um direito, e age para garantir os direitos dos animais não humanos. Francione observa que a indústria da carne diz que não devemos ser "cruéis" com outros animais e devemos tratá-los "humanitariamente". Uma vez que animais não humanos são propriedade, o resultado é que termos como "cruel" e "humanitário" são necessariamente, mas, silenciosamente, definidos de tal forma que bilhões e bilhões de animais não humanos são condenados à morte na eficiência insensível de fazendas industriais e nos matadouros industriais. A PeTA diz exatamente a mesma coisa; não devemos ser cruéis com outros animais e devemos tratá-los humanitariamente. Embora às vezes a PeTA diz ter uma meta abolicionista, o resultado do que ele diz e faz, é - como acontece com a indústria da carne - o mesmo; sofrimento perpétuo e morte. Isto é completamente previsível.

Francione observa a relação simbiótica entre as duas; a indústria da carne é incentivada a fazer coisas tão horríveis quanto possível com os animais não humanos, a PETA se engaja em uma campanha bem-estarista rentável com angariação de fundos que, eventualmente, resulta que indústria da carne faça uma mudança insignificante, a vitória é declarada, consumidores de carne são consolados, e PeTA recebe a doação em dólares, tornando-se assim uma entidade maior. Então, o ciclo se repete. Cada grupo se beneficia do outro. Cada grupo usa a indústria de relações públicas, que aconselha o uso de certos termos; "direitos" animais e "bem-estar" para a PeTA e "pollo [os que comem frango] vegetarianos" e "bem-estar animal" para a indústria da carne. Ao invés de focar nas indústrias de exploração de animais não humanos, e nos ativistas bem-estaristas que promovem a mesma ideologia, eu foco no público que os apoia. O movimento pelos direitos animais é um movimento popular.

Pergunta: A PeTA diz que seus críticos deveriam parar de reclamar e seguir o seu exemplo e dar continuidade ao ativismo que irá tornar as coisas melhores para os animais. Você concorda com isso?

Jeff Perz: Quando a PeTA diz que seus críticos deveriam parar de criticá-la e deixar que a PeTA supostamente torne as coisas "melhores" para os animais não humanos desonerados, isso significa que a PeTA quer que os seus críticos calem-se sobre as suas campanhas bem-estaristas prejudiciais. Eu, por outro lado, não sugiro ignorar a PeTA por este motivo. Ao contrário, eu acho que é importante discutir e entender porque as campanhas bem-estaristas da PeTA prejudicam seriamente os animais não humanos, mas uma vez que isto é entendido, e um ativista agora está praticando a defesa dos direitos, ele ou ela não deve focar na PeTA. Em vez disso, focar em educação vegana ajudaria muito mais os animais não humanos. Isso não significa que devemos aceitar todo tipo de ativismo - incluindo ativismo bem-estarista - como promoção dos interesses dos animais não humanos. O bem-estarismo prejudica os animais não humanos, nós deveríamos entender o porquê, mas não deveríamos insistir no assunto, porque se fizermos isso, não estaremos criando um mundo vegano. Espero que você consiga apreciar estas distinções essenciais.

Eu reconheço plenamente que a PeTA - bem como seus colegas da indústria da carne, ovos e leite - são muito destrutivos. Por que eu não foco na indústria da carne; apesar do McDonald´s , Hungry Jack´s, Wendy´s, KFC e seus fornecedores realizarem determinadas ações? Três razões. Primeiro, como um abolicionista, as únicas exigências que eu posso fazer em relação a eles, é que fechem o negócio ou se tornem um negócio vegano; coisas que as corporações com fins lucrativos não são capazes de fazer quando a maioria da população continua a consumir produtos de origem animal. Em segundo lugar, como discutido anteriormente, fazer exigências bem-estaristas apenas resultam em animais não humanos serem seriamente prejudicados. Terceiro, a única razão pela qual as indústrias da carne, ovos e leite e seus varejistas existem, é porque o público os mantêm em atividade. Então, eu abordo o problema em suas raízes: a criação de um mundo vegano com uma pessoa de cada vez vai levar à abolição das indústrias da carne, ovos e leite e seus revendedores. É por isso que eu foco no público, e não nas indústrias. Da mesma forma, como observa Francione, a PeTA e o resto da indústria de bem-estar animal não é diferente, em substância, das organizações de caridade animal "humanitárias" que existiam na década de 50. Como argumentei, as indústrias de produtos animais e a PeTA podem ser colocadas na mesma categoria. Ambas são meramente sintomas do mesmo problema fundamental, como a maioria dos humanos que veem outros animais como recursos. É esta ideia generalizada que procuro questionar quando eu promovo a educação vegana. A PeTA vai desaparecer por si só (ou se transformar em uma organização abolicionista), ao mesmo tempo que as indústrias de produtos de origem animal irão desaparecer por si só (ou se transformarão em empresas veganas): tudo como resultado da educação vegana para o público e educação abolicionista para veganos e ativistas veganos. Então, da mesma forma, não foco em se o KFC assassina frangos cortando suas gargantas, eletrocutando-os ou usando gás, eu também não concentro minha atenção de ativista no que a PeTA tem a dizer sobre isso. Novamente, os métodos de abate do KFC, e o que PeTA tem a dizer sobre eles, equivalem a mesma coisa.É muito mais eficaz promover a educação vegana e abolicionista.

Se alguém apoia as campanhas chamativas, sexistas e destruidoras da PeTA ou se alguém rejeita estas campanhas, mas, no entanto, segue cada passo da PeTA, o foco ainda está na PeTA. Será que um ativista sincero dos direitos faria o mesmo em relação a indústria da carne? Como ativistas, precisamos esclarecimentos sobre a PeTA e começar a fazer o que realmente importa; a criação de um mundo vegano. Para os ativistas que não entendem a destrutividade da indústria do bem-estar animal, pode ser útil explicar as coisas usando a PeTA como um exemplo. No entanto, como ativistas dos direitos animais, o nosso tempo não deve ser gasto catalogando e reclamando sobre as complexidades e controvérsias que cercam a mais recente aventura da PeTA. Ao contrário, devemos gastar o nosso tempo e energia com coisas que realmente fazem diferença para os animais não humanos. Fico feliz em responder às suas perguntas sobre a PeTA, mas eu encorajo os seus leitores ativistas de direitos animais a realmente rejeitar a PeTA, parar de dar-lhe os holofotes e concentrar-se em ativismo de base real. O mesmo é verdadeiro para os grupos australianos que se propõem a trabalhar pelos direitos, mas, no entanto, fazem campanhas bem-estaristas. A alternativa viável para focar em grupos bem-estaristas é promover educação vegana abolicionista.

Pergunta: A PeTA retrocedeu em relação a sua agenda radical de direitos, porque nada foi feito de forma consistente por este grupo durante um período de tempo para questionar uma agenda americana política neo-conservadora distinta OU é a agenda neo-conservadora que é exercida hoje nos EUA que é demasiadamente forte para ser resistida, uma vez que a PETA se desloca dentro de uma posição bem-estarista (especialmente nas práticas de abate humanitário,) e, então, sem surpresas, a PeTA foi absorvida de volta para dentro do sistema em vez de oferecer resistência a uma oligarquia já corrupta?

Jeff Perz: Ambos. Usando o termo de Francione, a PeTA começou como uma organização neo bem-estarista; aquela cujo objetivo era a abolição, mas cujos meios de supostamente alcançar esse objetivo foram bem-estaristas. Como Francione argumenta em Rain Without Thunder: The Ideology of The Animal Rights Movement, este método neo bem-estarista é falho na teoria e é contraproducente na prática. A teoria bem-estarista não é a favor de direitos; é fundamentada na teoria utilitarista de Peter Singer, que permite o consumo de carne e a vivissecção, como Francione observa. Por isso, a PeTA nunca teve uma agenda radical de direitos; e, sim, ela nunca fez nada de forma consistente ao longo do tempo para desafiar o status quo. É por isso que nunca alcançou e nunca alcançará qualquer progresso em seu objetivo, chamado, às vezes, de abolição. Neste caso, o status quo é o status dos animais não-humanos como propriedade e não é distintamente americano.

Ativistas bem-estaristas podem ser encontrados no mundo todo, e os resultados são os mesmos que o bem-estarismo americano. Em termos mais gerais, como Chomsky argumenta, a agenda "conservadora" de manter e aumentar o lucro privado da elite, e poder às custas de todos os outros, não é nova, e a única razão pela qual os Estados Unidos é distinto a esse respeito, é porque ele conseguiu fazê-lo melhor que os seus antecessores Inglaterra e os seus concorrentes europeus. Então, sim, a PeTA nunca desafiou isto. Atualmente, parece que a PeTA não fala, de forma alguma, sobre um objetivo de direitos ou abolicionista, a menos que seja apenas para fins retóricos. De qualquer forma, os meios da PeTA nunca foram radicais ou de direitos, e é por isso que ela não promoveu os interesses dos animais não humanos.

Além disso, como você diz, a PeTA não resiste à agenda do status quo da maximização do lucro privado da elite e poder - pelo contrário - e isto também se aplica ao exemplo mais específico de animais não humanos como propriedade legal e às leis de abate "humanitário" que vão junto com isso. Como já discuti, há uma relação simbiótica, mutuamente satisfatória, entre a PeTA e as indústrias de exploração de animais não humanos, embora eu tenho certeza que o pessoal da PeTA negaria sinceramente essa relação.

Pergunta: Por que a mensagem de "compaixão" não é suficiente, e a prevenção do sofrimento é sinônimo de bem-estarismo ou direitos, ou ambos ou nenhum?

Jeff Perz: Francione argumenta contra a ética eco-feminista do cuidado, porque ela não pode ser de nenhuma utilidade para as mulheres humanas ou animais não humanos, se qualquer um deles for considerado propriedade. Por exemplo, se uma mulher humana é propriedade de seu pai ou marido e está sendo explorada para o sexo é absurdo e contraditório dizer que ela está sendo estuprada "cuidadosamente". O mesmo é verdadeiro com relação a uma vaca que é propriedade de um fazendeiro, que a estupra através de inseminação artificial para que ela possa ser explorada para produzir leite. Assim, Francione conclui que os direitos básicos devem fundamentar qualquer ética eco-feminista de cuidado e agir como uma base moral. Depois de feito isso, uma ética do cuidado pode ultrapassar o mínimo de proteção que os direitos fornecem.

Gostaria de acrescentar que o mesmo é verdade sobre uma ética de compaixão. Novamente, o mesmo pode ser verdade sobre uma ética de Compaixão. É talvez este último sentido da Compaixão que está de acordo com o antigo dharma budista. Referindo-se a "compaixão" com 'c' minúsculo, é o tipo de compaixão que funciona muito bem quando é aplicada aos humanos que possuem direitos básicos, mas falha miseravelmente quando é aplicada a quem não tem esses direitos. Não é suficiente ser "compassivo" com os animais não humanos nesse sentido, porque, como Francione poderia dizer, eles não podem ser violados com compaixão, e abate "humanitário" é um oxímoro.

Você pergunta se a prevenção do sofrimento é sinônimo de bem-estarismo ou direitos, ou ambos ou nenhum?

Sim. A prevenção do sofrimento é sinônimo de bem-estarismo, na medida em que tal prevenção é o foco primário aparente do bem-estarismo. A prevenção do sofrimento não é sinônimo de bem-estarismo, na medida em que o bem-estarismo deve necessariamente falhar na prevenção da maioria esmagadora do sofrimento que é infligido aos animais não humanos em contextos institucionalizados. O único sofrimento que o bem-estarismo é, realmente, bem sucedido em prevenir, é o sofrimento que possa resultar de práticas economicamente ineficientes.

A prevenção do sofrimento é parte da teoria de direitos e prática, porque a violação dos direitos básicos é a origem do sofrimento em ambientes de exploração. Além disso, respeitar o direito básico de não ser propriedade impede que os indivíduos sofram como resultado de ser explorados, pois isso impede a exploração em si. No entanto, a prevenção do sofrimento não é o foco principal da teoria de direitos e prática, mas sim a conclusão lógica dessa teoria e prática.

Entrevista realizada por Claudette Vaughan.

Tradução feita por Vera Regina Cristofani, coordenadora do Gefran (Grupo de Estudos da Abordagem Abolicionista de Gary Francione).

Original Article in English