Manifesto de um Grupo de Veganas Abolicionistas Feministas

Dialogando
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Como veganas abolicionistas e feministas, somos contra o uso de táticas sexistas no movimento de defesa animal. O veganismo ético de direitos animais é parte da conclusão lógica de oposição à exploração de todos os seres sencientes - tanto dos animais humanos quanto de animais não-humanos.

Como veganas abolicionistas e feministas, somos contra o uso de táticas sexistas no movimento de defesa animal. O veganismo ético de direitos animais é parte da conclusão lógica de oposição à exploração de todos os seres sencientes - tanto dos animais humanos quanto de animais não-humanos.

Como veganas abolicionistas e feministas, somos contra o uso de táticas sexistas no movimento de defesa animal. O veganismo ético de direitos animais é parte da conclusão lógica de oposição à exploração de todos os seres sencientes - tanto dos animais humanos quanto de animais não-humanos.

Oposição ao especismo é incompatível com o exercício de sexismo ou qualquer outra forma de discriminação, como o racismo, o heterossexismo, o classismo, e outras formas de opressão.

Infelizmente, temos testemunhado muitos ativistas dizendo que não há nada de errado em usar o "sexo" como uma ferramenta para transmitir a nossa mensagem, utilizando diversos argumentos para tentar justificar esta opinião. Além disso, outros ativistas foram injustamente atacados por "sexismo", porque são abertamente críticos ao sexismo e escolhas sexistas no movimento. O sexismo nem deveria ser aceitável por defensores que levam o trabalho de antiopressão a sério.

Alguns ativistas defendem a utilização do sexo, acusando-nos de ser "anti-sexo" ou pudicas. Veganas abolicionistas não são, de forma alguma, hipócritas. No entanto, vemos que a maneira que o sexo é usado para vender coisas na nossa sociedade patriarcal reforça uma visão das mulheres como uma mercadoria. Por exemplo, basta dar uma olhada na maneira como a PeTA usa o sexo em suas campanhas – elas reforçam padrões de beleza ocidental prejudiciais, usando apenas mulheres magras, de peitos grandes, que tendem a parecerem vulneráveis e atraentes para o (homem heterossexual ) destinado espectador, bem como utilizando somente homens musculosos e em forma e com postura de poderosos e autoconfiantes. Quando o sexismo está sendo usado para tentar "vender" a justiça para os animais não-humanos, em detrimento do reforço de atitudes prejudiciais para as mulheres, a ironia é clara. A gravidade das injustiças cometidas tanto contra os animais não-humanos e contra as mulheres no mundo é banalizada pelo uso de táticas baseadas em estereótipos fúteis e nocivos, longe de contestar a questão da exploração animal, este tipo de abordagem reforça exatamente os estereótipos que têm prejudicado as mulheres e os animais não-humanos igualmente.

Alguns dos ativistas que defendem o uso do sexo acreditam que mostrar a nossa sexualidade vai chamar a atenção de veganos em potencial apelando para a sua própria autoimagem, o que implica que, quando eles veem como ser vegano nos transforma em seres “sexy”, eles vão querer tornar-se veganos também. Esta noção não só é equivocada, mas também prejudicial para a mensagem real que devemos transmitir. Veganismo é sobre os direitos animais, não sobre sentir-se sexy ou melhorar a qualidade do sexo (características que todos nós sabemos pouco têm a ver com ser vegano ou não, mas com o estilo de vida de cada indivíduo e o seu bem-estar) e que certamente não é sobre "ter uma aparência melhor" do que pessoas que comem carne.

Promover o veganismo como uma forma de tornar-se "sexy", que infelizmente é quase sempre equiparado a "perder peso" na nossa sociedade (por exemplo, o livro "Skinny Bitch" vem à mente), reforça ainda mais os preconceitos contra as pessoas gordas ou com sobrepeso, o que prejudica mulheres e homens em nossa sociedade, mas, especialmente, as mulheres. Sem mencionar que o veganismo não é uma fórmula mágica para perder peso - existem muitos veganos que estão longe de serem "magros", que estão essencialmente recebendo a mensagem de que eles são um fracasso por estes tipos de campanhas que sugestiva ou claramente promovem o veganismo como uma forma de atingir padrões de beleza ocidental. Apelando para estes padrões prejudiciais não só reforça-os, mas chama a atenção para longe da verdadeira razão pela qual as pessoas deveriam tornar-se veganas, que é o de reconhecer a personalidade moral dos animais não-humanos.

Muitos destes ativistas que defendem táticas sexistas alegam que elas não são, de fato, táticas sexistas, que elas "fortalecem" as mulheres que optam por participar delas, e então criticar essas campanhas é um desrespeito a essas mulheres - alguns chegam a afirmar que ao criticá-las é em si mesmo sexista. Estes argumentos são falsos por uma série de razões. Primeiramente, estas alegações são feitas geralmente contra homens, quando eles criticam tais campanhas. Mas o sexo da pessoa por si só não torna uma pessoa mais ou menos qualificada para falar sobre sexismo ou feminismo.

Há uma verdadeira atitude de "os homens devem calar-se e ouvirem as mulheres" nessas afirmações que visa substituir o igualitarismo que o feminismo demanda com um oco e biologicamente embasado autoritarismo. Como Bell Hooks sugere, enquanto irmandade é poderosa, o feminismo é para todos. Como mulheres veganas abolicionistas, estamos muito contentes de ter como aliados homens como Gary L. Francione, entre outros, que têm denunciado o sexismo no movimento de defesa animal e coerentemente se pronunciado pelo feminismo durante anos. Enquanto nós, naturalmente, acreditamos que as mulheres devem ser ouvidas e levadas a sério, escutar não equivale a aceitar ou concordar com argumentos simplesmente porque essa pessoa é do sexo feminino, discordar desses argumentos e apresentar contra-argumentos lógicos não equivale a ser sexista . É lamentável, mas o sexismo está tão impregnado em nossa sociedade que algumas mulheres nem mesmo acreditam que ele ainda seja um problema, não veem como o sexismo tem um impacto sobre suas vidas, e não sentem que o feminismo é relevante para elas. Alguns aliados do sexo masculino passaram anos estudando a teoria feminista, e apenas porque são do sexo masculino, não invalida esta especialização. 

Além disso, a visão de que qualquer coisa que uma mulher opta por fazer a "fortalece" é simplista, na medida em que ignora o contexto patriarcal em que essas escolhas são feitas. Sim, as mulheres que participam das campanhas que estamos criticando optaram por fazê-lo voluntariamente, e algumas podem sentir-se liberadas, ou sentir-se como se as suas escolhas são elas próprias um desafio à objetificação do sexo feminino, e temos que reconhecer que elas se sentem dessa forma. Estamos simplesmente pedindo-lhes para considerar seriamente que estas campanhas são prejudiciais tanto para as mulheres, bem como ineficazes em desafiar a exploração dos animais não-humanos, e que, em vista disso, as mulheres devem deixar de apoiar ou participar delas.

Como dito acima, a visão de que as mulheres são "fortalecidas" ou "liberadas", optando por mercantilizarem-se ignoram a dimensão estrutural do sexismo em nossa sociedade patriarcal. Quer queiramos ou não, nossas escolhas tentam "retomar" o patriarcado de mercantilização das mulheres, participando nele voluntariamente afetam a vida de outras mulheres, especialmente as mulheres com menos poder. Em uma cultura que ainda vê e apresenta as mulheres como objetos sexuais no dia-a-dia, a intenção de "retomada" ou "controle de recuperação" dessas escolhas é inteiramente perdido para o grande público, e a objetificação e a mercantilização são simplesmente reforçadas. Quando esse sexismo é reforçado como sendo aceitável ou como algo sem importância, o efeito global é o de reforçar as atitudes que permitem o tráfico, abuso e outras formas de exploração e violência que são vítimas as mulheres em situação de pobreza e de menor status sócio-econômico em torno do mundo a cada dia.

Alguns afirmam que essas campanhas são necessárias para obter a atenção do público. Como mencionado acima, isso chama a atenção longe dos verdadeiros motivos por trás do veganismo: os direitos dos seres sencientes de não serem considerados propriedade. Chamar atenção a todo o custo não é o caminho para promover um assunto sério como a violência contra animais, num mundo em que a violência já não é levada a sério, táticas de atenção-a- qualquer-custo apenas servem para continuar a banalizar o assunto. Campanhas sexistas da PeTA realmente chamam atenção, mas, em geral, é a atenção para a PeTA, não para os problemas reais. É uma tática de marketing de guerrilha destinada a levar as pessoas a falarem sobre a PeTA, para que as doações continuem fluindo. (E olha, está funcionando, já que aqui estamos falando sobre a PeTA, mas nós sentimos que não podíamos discutir esta questão sem mencionar o maior e pior ofensor, infelizmente).

Ainda mais preocupante são as campanhas de vídeo que justapõe sexo e imagens explícitas, sangrentas de violência contra os animais, supostamente para capturar a atenção de homens jovens heterossexuais e, em seguida, para informá-los sobre o tratamento dos animais não-humanos. Por exemplo, na campanha da PeTA "State of the Union Undress 2010" apresenta uma mulher fazendo strip-tease "pelos animais", depois da qual, um segundo vídeo automaticamente começa a ser mostrado, retratando a violência gráfica infligida aos não-humanos. Como exatamente fazer com que homens associem essas imagens sexualmente excitantes com imagens sangrentas de violência vai ajudar alguma coisa?

As campanhas que descaradamente usa o sexo e os padrões de beleza ocidentais não são as únicas táticas sexistas usadas no movimento de defesa animal. Por exemplo, as campanhas de longa data contra a pele têm um elemento marcadamente sexista. Ao destacar a pele, os ativistas não estão apenas sugerindo que haja alguma diferença moral entre peles e couro ou outros tipos de vestuário derivados de animais, que não há, mas eles também estão destacando aqueles seres humanos que usam peles, ignorando ou minimizando as ações daqueles que usam outros tipos de animais. A maioria das peles em nossa sociedade são usadas por mulheres. Efetivamente, essas campanhas destacam como moralmente errado um uso em particular de não-humanos, principalmente por mulheres, minimizando outros usos igual e moralmente errados por todos os gêneros. Salientar que uma velhinha com um casaco de peles está errada em usar animais, ignorando um motociclista em uma jaqueta de couro realmente ajuda alguma coisa?

Também vale a pena mencionar quais são as questões de gênero envolvidas na exploração animal. Os animais explorados especificamente para o leite e os ovos são, deveria ser óbvio, as fêmeas sendo exploradas por seus ciclos reprodutivos. Elas são repetida e forçosamente impregnadas no caso das vacas e outros mamíferos, utilizadas pelo seu leite, ou seja violadas, então seus filhos são tirados delas, o que causa extrema angústia a mãe e ao bebê. Ambos os mamíferos e aves são mortos quando atingem uma idade em que seu ciclo reprodutivo diminuem ou param, e elas já não são rentáveis para os seus proprietários. Da mesma forma, as fêmeas da maioria das espécies exploradas pelos humanos são usadas como "criação" de animais, forçadas a terem ninhadas após ninhadas de jovens, e descartadas quando a sua utilidade para esse propósito diminui.

Embora, como é de se esperar em nossa sociedade especista que considera não-humanos como propriedade, o feminismo e sexismo sempre se referem aos seres humanos, quando se olha para ele a partir de uma perspectiva que é simultaneamente vegana abolicionista e feminista, esta exploração das fêmeas animais "femininas" poderia ser vista constituindo a intersecção dessas duas lutas. É estranho que algumas pessoas afirmam serem vegetarianas (mas não veganas) por "razões feministas" - se-ia pensar que, se alguém acredita na conexão entre o consumo de carne animal e o tratamento das mulheres "como carne", que eles também veriam o uso de produtos de origem animal que vêm especificamente dos ciclos reprodutivos das fêmeas como sendo conectados. O feminismo não é meramente uma questão de ter uma vagina e um monólogo, é uma prática diária vivida, uma força dinâmica para a mudança e libertação, um diálogo, uma comunidade, e uma transformação social incorporadas nas palavras e ações a cada momento das nossas vidas.

Se o feminismo é para todos, isto inclui os animais não-humanos. Como defensores dos direitos animais, sendo homens ou mulheres ou transgêneros, é nossa responsabilidade se opor à exploração e opressão de todos os seres sencientes. Isto será alcançado através da educação de outros de uma forma criativa e objetiva. Como podemos presumir acabar com a exploração dos animais não-humanos enquanto incentivamos ou aceitamos a exploração dos nossos companheiros humanos?

A questão é: a mercantilização de nós mesmas, não "nos fortalece" verdadeiramente. Nós não podemos usar os métodos sexistas para promover uma questão de justiça social. Toda a exploração dos seres sencientes está relacionada, nós não vamos acabar com o especismo, a opressão dos animais não-humanos simplesmente porque eles não são humanos, sem um firme compromisso para acabar também com o sexismo, e certamente não com o tipo de oportunismo engajado de atenção-a-todo-custo de determinados ativistas em detrimento de outros grupos oprimidos.

Ana María Aboglio

Paola Aldana de Meoño

Jo Charlebois

Elizabeth Collins

Vera Cristofani

Karin Hilpisch

Mylène Ouellet

Renata Peters

Trisha Roberts

Kerry Wyler