Por que as campanhas de reforma do bem-estar animal e as campanhas de um só tema necessariamente promovem a exploração animal

Gary Francione
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Gary L. Francione e Anna Charlton

O propósito das campanhas de reforma do bem-estar animal e as campanhas de um só tema (CUST) single-issue campaigns (SICs), em inglês é construir parcerias que incluem aquelas pessoas que acreditam que a exploração animal, por si só, é moralmente aceitável e que se opõem apenas ao foco particular da campanha de reforma ou da CUST. Estas campanhas precisam direcionar esforços para a o nível mais baixo do espectro, caso contrário perderão aquela parte da parceria. E é precisamente este o problema.

Gary L. Francione e Anna Charlton

O propósito das campanhas de reforma do bem-estar animal e as campanhas de um só tema (CUST) single-issue campaigns (SICs), em inglês é construir parcerias que incluem aquelas pessoas que acreditam que a exploração animal, por si só, é moralmente aceitável e que se opõem apenas ao foco particular da campanha de reforma ou da CUST. Estas campanhas precisam direcionar esforços para a o nível mais baixo do espectro, caso contrário perderão aquela parte da parceria. E é precisamente este o problema.

 

Uma campanha de reforma do bem-estar que objetiva reduzir gradativamente o uso de gaiolas de gestação para porcas busca construir uma parceria que inclui pessoas que comem produtos de origem animal, incluindo carne de porco, mas que concordam que as gaiolas de gestação não são "humanitárias". Uma campanha de reforma do bem-estar que busca reduzir gradativamente o uso da gaiola de bateria para galinhas poedeiras busca construir uma parceria que inclui pessoas que comem ovos de galinhas confinadas em gaiolas "enriquecidas" ou em uma grande gaiola, conhecida como "celeiro sem gaiolas". Uma CUST que tem foco no foie gras busca construir uma parceria que inclui pessoas que comem carne, mas que consideram que foie gras é moralmente distinguível de outras carnes. Uma CUST que tem foco na carne busca construir uma parceria que inclui pessoas que consomem laticínios e ovos. Uma CUST que tem foco na pele de animais busca construir uma parceria de pessoas que vestem lã, couro, ou seda, ao invés de peles.

Como as campanhas de reforma do bem-estar e CUSTs buscam construir parcerias com pessoas, muitas das quais engajam-se em conduta que é indistinguível daquela que é o foco da campanha de reforma ou CUST que estão apoiando, estas campanhas necessariamente promovem a exploração animal que não é o foco daquela campanha de reforma ou CUST. Isto é, a campanha de reforma precisa caracterizar a reforma do uso ou os produtos que não são o foco da CUST (mas que são moralmente indistinguíveis dele), como mais "humanitários" ou "compassivos", não apenas como uma questão factual (eles supostamente causariam menos sofrimento), mas como uma questão normativa ou moral. Em outras palavras, campanhas de reforma do bem-estar e CUSTs comunicam ao público que as pessoas deveriam apoiar o suposto uso melhorado, ou o produto que não é o foco da campanha.

Portanto, uma campanha contra as gaiolas de gestação deve promover a carne de porcos que não são criados em gaiolas como uma escolha normativamente desejável algo que as pessoas deveriam apoiar e consumir. Se a campanha sequer sugerisse que qualquer consumo de carne, ou mesmo qualquer consumo de carne de porco, é moralmente errado, aquelas pessoas que são contrárias às gaiolas de gestação, mas que acreditam que consumir carne de porco (ou carne, em geral) é correto, não iriam apoiar nem doar dinheiro para a campanha.

Para colocar em termos simples: se Maria consome carne, mas concorda que gaiolas de gestação são cruéis, ela irá doar dinheiro para o que ela compreende ser uma campanha que afirma que consumir produtos de origem animal diferentes da carne de porcos criados em gaiolas é moralmente melhor do que consumir carne de porcos criados em gaiola, e que ela está se comportando mais moralmente do que as pessoas que consomem carne de porcos engaiolados. Ela não vai apoiar ou doar dinheiro para uma campanha que diz que o que ela está fazendo não é moralmente melhor do que aquilo que as pessoas que consomem porcos engaiolados estão fazendo. Como podemos ver facilmente, essa situação resulta na promoção da ideia de que a exploração animal que Maria realiza é moralmente aceitável.

Uma CUST contra o foie gras precisa promover a ideia de que comer um pedaço de bife, frango, peixe ou patê de fígado de ganso que não foi alimentado à força é aquilo que as pessoas deveriam fazer. Se a campanha sequer sugerisse que as pessoas deveriam interromper o consumo de todos os produtos de origem animal, ou mesmo apenas interromper o consumo de todas as carnes, as pessoas que pensam que alimentar gansos à força é errado, mas que acreditam que é correto comer produtos de origem animal não iriam apoiar a campanha nem doar dinheiro para ela. Uma CUST contra casacos de pele de animais precisa promover a ideia de que as pessoas devem vestir lã ou couro no lugar de roupas feitas com pele. Se a campanha antipele sequer sugerisse a ideia de que também é imoral vestir lã e couro, aquelas pessoas que acham que é trágico que filhotes de focas sejam mortas a pauladas, ou que raposas sejam capturadas em armadilhas que prendem suas patas, mas que vestem lã e couro, não iriam apoiar ou ajudar financeiramente a campanha. Uma campanha contra as gaiolas de gestação não pode ser compreendida como uma iniciativa que promove o fim do consumo de carne de porco, de carne em geral, ou de produtos de origem animal; caso contrário, a campanha iria falhar em criar uma parceria porque aquelas pessoas que comem porcos ou outros produtos de origem animal não iriam apoiá-la

Todas estas campanhas regulatórias precisam se engajar no fingimento de que a atividade ou produto em foco é moralmente distinguível das atividades ou produtos que não são o assunto da campanha regulatória e que estes últimos são alternativas moralmente desejáveis. Se essas campanhas não disserem para as pessoas que continuam a participar da exploração animal que o que elas fazem as torna pessoas mais "compassivas", então elas não irão apoiar a campanha regulatória. É necessário fazer as pessoas se sentirem confortáveis, por intermédio de um fingimento sutil de que o foco da campanha é imoral, mas de que a conduta dessas pessoas não é imoral, ou é muito menos imoral.

Portanto, em realidade, todas as parcerias por reforma do bem-estar e CUSTs possuem uma coisa em comum: elas envolvem um largo espectro de pessoas que "se importam" com animais, enquanto promovem exploração que é mais "humanitária", ou promovem produtos de origem animal ou usos que não são o foco da campanha de reforma do bem-estar ou CUST.

Um efeito particularmente maligno destas parcerias é que elas tornam sem sentido o imperativo moral do veganismo, o qual discutiremos em maior detalhe quando chegarmos ao Princípio Três (da Abordagem Abolicionista para os Direitos Animais). Ao aliar não veganos e veganos (isto é, veganos que apoiam o bem-estarismo e as CUSTs) com o objetivo de formar um grupo de pessoas com um objetivo comum, a parceria cria a falsa impressão, dentre seus membros e diante do público, de que não existe diferença moral entre alguém que deliberadamente explora animais ao não ser vegano e alguém que não explora animais ao ser vegano. Parcerias retratam o ato de não comer, vestir e usar animais como irrelevante ou negligenciável no que diz respeito à justiça para com os animais. Isto, na realidade, evita que o veganismo seja visto como uma exigência moral.

É possível para essas campanhas não promover a exploração animal? Não. A única forma com que essas campanhas podem construir parcerias é por intermédio da promoção da exploração animal. Os bem-estaristas poderiam reformular estas campanhas e promover reforma do bem-estar animal com uma campanha que dissesse explicitamente: "Nós estamos promovendo gaiolas maiores para galinhas poedeiras, mas nos opomos a todo tipo de exploração animal, não importa quão 'humanitária' ela seja, e nós consideramos o veganismo como um imperativo moral, embora estejamos buscando gaiolas maiores para galinhas como uma medida temporária enquanto nós fazemos a transição para a abolição de toda a exploração animal"? Eles poderiam promover uma campanha de um só tema que dissesse explicitamente: "Nós consideramos todas as 'comidas' de origem animal como igualmente injustas e violadoras dos direitos animais, e nós consideramos o veganismo como uma base moral, mas nós estamos focando no foie gras agora e, assim que obtivermos sucesso, iremos seguir adiante para outros tipos de comida de origem animal"? Claro, essas são campanhas que poderiam ser promovidas. Mas, as únicas pessoas que iriam apoiar tais campanhas isto é, doar dinheiro para elas seriam aquelas pessoas que já abraçam a causa dos direitos animais. Tais campanhas teriam uma grande integridade moral, mas elas seriam completamente ineficientes, do ponto de vista de levantamento de recursos financeiros. E é precisamente por essa razão que nenhum grupo de defesa dos animais jamais promoveu uma dessas campanhas.

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Gary L. Francione e Anna Charlton

Trecho do livro escrito por Gary L. Francione and Anna Charlton, Animal Rights: The Abolitionist Approach (2015), 41-43.

Tradução: Tibérius O. Bonates