Essencialismo, Interseccionalidade, e Veganismo como um Fundamento Moral: Black Vegans Rock e a Sociedade Humanitária dos Estados Unidos

Gary Francione
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I. O Problema do Essencialismo

O racismo e o sexismo representam um mal moral. O racismo e o sexismo envolvem uma aceitação social do essencialismo, ou seja, da ideia que a biologia ou alguma outra característica isolada determina valor moral. Uma boa definição de essencialismo aparece aqui: 

Essencialismo é a ideia de que existe alguma qualidade central detectável e objetiva de grupos particulares de pessoas que é inerente, eterna e inalterável; grupos podem ser categorizados de acordo com tais qualidades essenciais, as quais são baseadas em critérios problemáticos, tais como gênero, raça, etnia, país de origem, orientação sexual e classe.

I. O Problema do Essencialismo

O racismo e o sexismo representam um mal moral. O racismo e o sexismo envolvem uma aceitação social do essencialismo, ou seja, da ideia que a biologia ou alguma outra característica isolada determina valor moral. Uma boa definição de essencialismo aparece aqui: 

Essencialismo é a ideia de que existe alguma qualidade central detectável e objetiva de grupos particulares de pessoas que é inerente, eterna e inalterável; grupos podem ser categorizados de acordo com tais qualidades essenciais, as quais são baseadas em critérios problemáticos, tais como gênero, raça, etnia, país de origem, orientação sexual e classe.

 

O racismo afirma que pessoas brancas possuem maior valor moral do que pessoas de cor porque pessoas brancas são brancas. O sexismo afirma que homens possuem maior valor moral do que mulheres simplesmente porque eles são homens. Como esse essencialismo é o paradigma dominante, aqueles que pertencem aos grupos favorecidos adquirem poder institucional para afetar negativamente as vidas daqueles que pertencem aos grupos desfavorecidos.

Todas as formas de discriminação envolvem essencialismo. O heterossexismo afirma que aqueles que se identificam como heterossexuais são moralmente mais valiosos do que os outros apenas porque eles são heterossexuais. O capacitismo (ou ableísmo) afirma que aqueles que são convencionalmente capazes possuem maior valor do que aqueles que não o são, com base unicamente na capacidade propriamente dita. Em todos os casos de discriminação, alguma característica é considerada como descritiva da "essência" de uma pessoa e é essa essência, e não o que a pessoa diz ou faz, que determina seu valor moral.

O especismo envolve essencialismo. Especismo é a crença de que é a essência, neste caso, a espécie, que, por si só, determina valor moral. Humanos são valiosos do ponto de vista moral porque são humanos.

Não há dúvida de que o movimento bem-estarista/neobem-estarista, que consiste das grandes instituições de caridade, tem sido, historicamente, sexista e racista (bem como discriminatório de outras maneiras). As instituições de caridade são empresas e, em um mundo que é patriarcal, racista e, certamente, injusto, a injustiça é um item que vende bem.

De fato, como a injustiça vende bem e dado que o especismo é a injustiça mais presente no mundo -- ele é um preconceito compartilhado por seres humanos, independentemente de raça, sexo, gênero, orientação/preferência sexual, capacidade, classe, etc --, o especismo vende muito bem. E os bem-estaristas e neobem-estaristas têm tirado proveito financeiro disso muito bem, na medida em que promovem várias formas de "exploração feliz", que faz as pessoas se sentirem mais confortáveis enquanto continuam a explorar animais, desde que elas realizem doações para instituições de caridade aos animais.

Eu tenho, consistentemente, feito oposição ao especismo -- assim como ao racismo, sexismo, e outras formas de discriminação humana -- que tenho encontrado não somente na sociedade como um todo, mas também dentro do movimento bem-estarista e neobem-estarista, durante os 30 anos estando envolvido em atividades relacionadas à ética animal e ao Direito. Por muitos anos, tenho insistido que o "movimento pelos direitos animais" é subinclusivo. Por exemplo, em 1993, eu escrevi, juntamente com minhas coautoras Anna Charlton e Sue Coe, um ensaio no qual dizíamos que:

O movimento pelos direitos animais é visto como o movimento burguês quintessencial, composto por pessoas brancas, de classe média, que geralmente são apolíticas, ou, pior ainda, conservadoras, e que colocam os interesses dos animais acima dos interesses humanos, frequentemente em detrimento de pessoas desprivilegiadas.

Nós discutimos a coalisão entre defensores do voto feminino e pessoas da classe operária que se formou no século XIX. Nós argumentamos que defensores dos animais tinham que estar em contato com todos os grupos oprimidos, com o intuito de construir uma coalisão por justiça que incluísse todos, inclusive os animais não humanos.

A Abordagem Abolicionista dos Direitos Animais, que é simplesmente como eu chamo atualmente a teoria que venho desenvolvendo há três décadas (já que "direitos animais", por si só, é, hoje, uma expressão sem sentido), exige uma rejeição explícita e enfática dos pontos de vista que promovem opressão e violência, sejam elas contra humanos ou não humanos.

A Abordagem Abolicionista promove o veganismo como um imperativo moral. O veganismo não é uma questão de opinião, estilo de vida, ou circunstâncias particulares. Ele é uma obrigação moral que nos une -- todos nós -- da mesma forma que obrigações morais que envolvem direitos humanos fundamentais nos unem. Tratar os direitos fundamentais de não humanos de maneira diferente daquela com que tratamos direitos fundamentais de humanos é especismo. A Abordagem Abolicionista afirma que, se você não é vegano(a), então você está participando diretamente da exploração animal e que você não tem como justificar isso.

A Abordagem Abolicionista deixa claro que para ser um(a) vegano(a) abolicionista é necessário rejeitar de forma explícita e enfática os pontos de vista que promovem opressão e violência ? sejam elas contra humanos ou não humanos. Juntamente com quase todas as vertentes do feminismo, do anti-racismo, e de outros movimentos sociais, a Abordagem Abolicionista rejeita o Essencialismo -- todas as variantes da ideia de que o valor moral é determinado por características pessoais, tais como raça, sexo, gênero, capacidade, etc.

A Abordagem Abolicionista dos Direitos Animais é uma ideia. Ela não é uma organização. Não existe um botão do tipo "Clique aqui para doar". Não há solicitações de financiamento coletivo, para que as pessoas possam ser "ativistas" profissionais. Não há funcionários. Não há camisetas, broches, ou adesivos de carro. Nós reconhecemos que, no momento em que tentamos transformar nosso ativismo em um meio de sustento, nosso ativismo se torna vítima de incentivos perversos que colocam pressão sobre nós, para que comprometamos nossa mensagem com o objetivo de aumentar as doações.

Em vez disso, nós fazemos parte de um movimento popular crescente que envolve pessoas de todo o mundo -- um grupo diverso, em todos os sentidos -- que dedicam voluntariamente seu tempo com o objetivo de educar outros e cujas vidas diárias são um exemplo da paz que eles desejam ver no mundo.

O que nos une na forma de uma comunidade é uma crença de que todos os seres sencientes possuem o direito de não serem usados como propriedade; uma crença no veganismo como uma base moral do movimento pelos direitos animais; uma rejeição da ideia de exploração "humanitária" ou "feliz", e uma completa rejeição de todas as formas de discriminação e violência. Há Seis Princípios da Abordagem Abolicionista dos Direitos Animais:

O Princípio Três afirma: Abolicionistas sustentam a ideia de que o veganismo é uma base moral e que a educação vegana criativa e não violenta deve ser a pedra fundamental de um ativismo racional pelos direitos animais.

O Princípio Cinco afirma: "Abolicionistas rejeitam todas as formas de discriminação humana, incluindo racismo, sexismo, heterossexismo, ageísmo, capacitismo e classicismo ? da mesma forma que rejeitam o especismo."

O Princípio Seis afirma: "Abolicionistas reconhecem que o princípio da não violência é um princípio central do movimento pelos direitos animais." Nós -- todos nós -- que nos beneficiamos de privilégios de raça e sexo, devemos nos manter constantemente conscientes a respeito de tais privilégios. Aqueles dentre nós que pertencem à classe média (e isso inclui muitos daqueles que se identificam como "vegano(a)s interseccionais") devem estar cientes a respeito do privilégio que obtemos por pertencermos à classe média. Nós -- todos nós -- devemos nos esforçar para assegurar que não promovemos ou defendemos pontos de vista moralmente errados pelo simples fato de que tais pontos de vista reforçam um privilégio.

Se um ponto de vista é imoral, a raça, o sexo, ou a identidade de gênero da pessoa em questão não torna o ponto de vista menos imoral. Se um ponto de vista, em particular, é bom e moral, então ele não perde sua força moral por causa da raça, do sexo, ou da identidade de gênero da pessoa que possui tal ponto de vista. Afirmar algo diferente disso seria aceitar o Essencialismo.

II. “Interseccionalidade” ou Essencialismo?

Existem defensores dos animais que alegam que a "comunidade vegana predominante" tem falhado em levar em conta preocupações sobre direitos humanos, e tem se mostrado racista e sexista. Conforme discutido acima, eu concordo fortemente com essa observação, embora eu não concorde, de forma alguma, em descrever o movimento bem-estarista/neobem-estarista como envolvendo uma "comunidade vegana". De fato, um dos problemas com o movimento pelos direitos animais "predominante" é que ele não tem promovido o veganismo como nenhum tipo de princípio moral. Além disso, muitos grupos de defesa animal predominantes acolhem não veganos como membros, voluntários e doadores, ao mesmo tempo em que denunciam que o veganismo é extremista e desnecessário.

De qualquer forma, esses defensores dos animais estão promovendo o que eles alegam ser uma alternativa progressista ao que eles chamam de movimento "predominante", um termo que usam para se referirem às organizações de caridade bem-estaristas/neobem-estaristas e à Abordagem Abolicionista. De fato, muitos desses defensores têm afirmado que a Abordagem Abolicionista não vai suficientemente longe. Esses defensores identificam-se como "veganos interseccionais". Como parte de sua tentativa de ocupar uma posição de liderança e autoridade como defensores da causa animal, eles alegam que o veganismo interseccional oferece justiça para os não humanos e elimina o racismo, o sexismo, e outras formas de discriminação que têm caracterizado o movimento "predominante".

Infelizmente, muitos daqueles que baseiam suas alegações de liderança e autoridade no fato de serem "veganos interseccionais" estão seguindo uma abordagem da ética animal que é precisamente tão reacionária quando o ponto de vista bem-estarista/neobem-estarista e, em grande parte, indistinguível dele.

Conforme irei mostrar agora, os chamados "veganos interseccionais" adotam o especismo, no sentido de que, assim como os bem-estaristas/neobem-estaristas, eles rejeitam o veganismo como uma base moral.

Em vez de serem inequívocos no apoio aos direitos de todos, eles utilizam uma linguagem ambígua e negociam com os direitos de todos, substituindo um firme compromisso com a justiça social por "jornadas" ou "espaços", nos quais a violência e a opressão são aceitas, ao invés de censuradas severamente.

E, em vez de eliminarem o Essencialismo da discriminação, eles o substituem por um novo Essencialismo que afirma que a corretude ou incorretude de um ponto de vista depende de quem é a pessoa que está falando, e não daquilo que a pessoa fala.

A maioria das pessoas que lideram esses movimentos, e que alegam ser interseccionais em suas abordagens do veganismo e dos direitos animais, não apresentam nada mais do que uma variante do ponto de vista bem-estarista/neobemestarista, com um novo elenco de personagens.

Veganos abolicionistas concordam completamente com a pró-interseccionalidade, que é a ideia de que nós precisamos reconhecer que certos humanos são sujeitos a múltiplas formas de discriminação. Por exemplo, uma mulher de cor é discriminada tanto por ser uma mulher, como por ser uma pessoa de cor. Focar unicamente na discriminação racial que ela sofre é negligenciar o sexismo que também a atinge.

Abolicionistas rejeitam toda forma de discriminação e aplicam isso de várias maneiras no contexto da defesa dos animais.

Primeiramente, como parte de sua rejeição de toda forma de discriminação, eles necessariamente rejeitam discriminação que envolve múltiplas fontes. Por exemplo, em 2010 a organização People for the Ethical Treatment of Animals (PETA) fez um comercial para levantar fundos que eu critiquei: o anúncio mostrava uma mulher de cor tirando sua roupa "pelos animais". Este anúncio envolvia, ao mesmo tempo, racismo e sexismo (e o próprio sexismo envolvia não somente a objetificação da mulher, mas a ideia de que somente certos tipos de corpos femininos são sexualmente atraentes).

Em segundo lugar, Abolicionistas procuram aplicar essa análise interseccional no contexto de animais não humanos. Por exemplo, eu tenho enfatizado há muito tempo que, embora todos os animais sejam explorados, as fêmeas têm seus processos reprodutivos e suas relações com seus bebês comodificadas. Eu não estou sugerindo que isso envolve a interseção de especismo e sexismo, na forma como o termo “sexismo” é normalmente compreendido. Mas, eu estou sugerindo que o tratamento das fêmeas dos animais é guiado por uma profunda misoginia que permeia a sociedade e resulta em fêmeas de animais serem sujeitas a uma exploração que reflete tal misoginia. É por isso que, quando encontro alguma pessoa que é feminista e que é vegetariana, mas não vegana, eu foco imediatamente no fato de que laticínios e ovos suscitam preocupações que qualquer feminista deveria compartilhar.

Ao criticar os "veganos interseccionais", eu não estou criticando o conceito da interseccionalidade. Eu reitero: a Abordagem Abolicionista é pró-interseccão (o uso do prefixo aqui é na tentativa de evitar apropriação da teoria que foi proposta por Kimberlé W. Crenshaw para discutir a opressão específica às mulheres de cor). Eu estou criticando um grupo de blogueiro(a)s que alegam aplicar o conceito à ética animal e que acabam por usá-lo erroneamente para justificar especismo, relativismo moral, e outras formas de Essencialismo. O movimento popular diverso e crescente que é fundamentado pela Abordagem Abolicionista é pro-interseccional. Ele rejeita o Essencialismo em todos os aspectos. Ele rejeita o especismo. Ele rejeita toda a discriminação humana. Conforme veremos, o movimento "vegano interseccional" não Abolicionista falha nestes dois pontos.

Tendo em vista que, conforme irei mostrar, os "veganos interseccionais" discutidos nesse ensaio não são interseccionais de forma alguma, precisamente porque eles adotam o Essencialismo -- inclusive o especismo --, cuja rejeição é central para a análise da interseccionalidade, eu não irei me referir a eles como "veganos interseccionais". Em vez disso, irei usar um termo que incorpora os pontos de vista que eles articulam, referindo-me a eles como "veganos essencialistas".

III. Veganismo Essencialista: A Rejeição do Veganismo como Base Moral

Se nós rejeitamos o especismo, então estamos comprometidos com o veganismo como uma questão de princípio moral. Nós não podemos justificar a morte de um animal senciente não humano como parte de nossa exploração institucionalizada de não humanos, a não ser que possamos justificar a morte de um humano.

No entanto, alguns "veganos interseccionalistas" proeminentes -- ou, como refiro-me a eles, veganos essencialistas -- não pensam da mesma forma.

Por exemplo, Amie Breeze Harper, que editou um volume de ensaios, chamado Sistah Vegan, que é considerado um texto fundamental do veganismo interseccional, nos disse que seu livro não trata "de pregar o veganismo ou de fundamentalismo vegano".

"Fundamentalismo vegano" é a palavra da moda usada por aqueles que rejeitam o veganismo como patamar moral para descrever o ponto de vista que está no centro da Abordagem Abolicionista. Dizer que alguém rejeita o "fundamentalismo vegano" é dizer que alguém rejeita a ideia de que o veganismo é uma base moral.

E isso é exatamente o que Harper faz. Eu assisti a essa palestra de Harper e ela diz muito claramente, entre outras coisas:

1. "Eu não acho que qualquer dieta seja a dieta correta."

2. Nenhum dieta é "universal". "Sua dieta e o que você precisa em termos de comida é algo que muda de acordo com 'who you are space'”. (O conceito exato da expressão não é bem estabelecido, por ser uma expressão introduzida recentemente. Ela parece remeter à ideia de que a moralidade depende de "quem você é e onde está neste momento de sua vida").

3. Como exemplo de "who you are space", Harper diz que ela parou de ser vegana quando estava grávida porque ela "simplesmente não conseguia" e "comeu alguns ovos por mês".

4. Ser vegana(o) é "difícil" em certos lugares (e, portanto, o veganismo não pode ser uma obrigação "universal").

Deixando de lado o fato de que o veganismo é mais do que apenas uma dieta, isso é nada mais do que o ponto de vista de que "o veganismo é meio que um bom comportamento padrão, mas é sujeito a conveniências, idiossincrasias individuais, jornadas pessoais, etc". Este ponto de vista rejeita explicitamente o veganismo como uma base moral que é universal ou aplicável de forma geral, e torna o veganismo uma questão de situação particular -- a questão do "who you are space".

O veganismo é uma questão de "who you are space"? Se os animais têm importância moral, então a resposta é certamente não, assim como observar os direitos fundamentais dos humanos também não é uma questão de "who you are space". A moralidade do estupro ou da violência sexual contra crianças é uma questão de "who you are space"? É claro que não.

Afirmar que o veganismo é um imperativo moral não é uma questão de "pregar o veganismo" ou de "fundamentalismo vegano". É uma questão de justiça fundamental.

Desertos onde não há comida e lugares onde grãos são fornecidos a animais para exportação, em vez de fornecidos a humanos, são cenários problemáticos? Absolutamente. Mas, isso significa que o veganismo não é um imperativo moral, de forma que temos a obrigação de aumentar a disponibilidade? É claro que não. Existem problemas em centros de detenção de imigrantes onde a escolha é entre morrer de fome ou consumir produtos de origem animal? É claro. Existem situações em que a violação de direitos fundamentais é desculpável. Mas, tais violações nunca são justificáveis. Elas nunca servem para modificar ou enfraquecer a base moral. Já houve casos em que pessoas à deriva no mar mataram e consumiram outros humanos. Ninguém jamais disse que aquilo é moralmente justificável, embora, em alguns casos, a punição tenha sido abrandada. No entanto, tal abrandamento nunca se traduz em uma modificação do princípio moral de que tirar a vida de outro humano, com a possível exceção da autodefesa ou da defesa de outros (sob circunstâncias muito limitadas), é sempre moralmente incorreto.

Eu fiz essas observações sobre Harper como parte de uma resposta a outra vegana essencialista, Ruby Hamad (quem eu discutirei adiante, na próxima seção), que havia mencionado Harper, e Harper comentou em minha resposta a Hamad. Ela não abordou nenhuma das minhas preocupações a respeito da substância do ponto de vista dela. No entanto, ela certamente afirmou que não vê o veganismo como uma base moral.

Por exemplo, ela alega que quando eu apontei que ela comeu ovos durante sua gravidez eu estava ilustrando o uso de um corpo grávido como um "local de 'base moral'". Mas, todos os corpos são "locais de base moral", no que diz respeito ao veganismo. É essa a questão. O que nós colocamos dentro e sobre os nossos corpos envolve uma questão de justiça ? pelo menos no que diz respeito à Abordagem Abolicionista. É isso que queremos dizer quando falamos sobre bases e imperativos morais.

Harper expressou interesse em como "indivíduos podem ser tão confiantes de que a 'maneira' deles é a base moral (quer seja vegano ou não)". Eu fico feliz de compartilhar com ela a base da minha confiança. Eu tenho oferecido argumentos que mostram que, se animais importam moralmente, o veganismo deve ser a base moral, ou o mínimo que nós devemos aos animais, se desejarmos respeitar a pessoalidade moral deles. Harper não aceita esses argumentos. Na verdade, ela diz rejeitar o conceito de bases por completo, posicionando-se contra a ideia de ser "fundamentalista" e alegando que a "'base moral' pessoal" dela está em um intervalo contínuo. Porém, bases morais nesse contexto não são uma questão de preferência ou visões pessoais; elas são regras morais universalizáveis, que respeitam e protegem a pessoalidade moral de animais não humanos. E se animais são pessoas morais, então o veganismo não é uma questão de escolha "pessoal" ? ele é um imperativo moral que nos obriga, ou se aplica, a todos.

Em outras palavras, Harper repetiu sua alegação de que a moralidade do veganismo é uma questão de "who you are space", usando termos levemente diferentes, mas igualmente não satisfatórios, do ponto de vista moral.

Harper obviamente não enxerga questões de interesses fundamentais humanos dessa forma. Ela não poderia. Ninguém poderia. Ela não poderia dizer que a moralidade do estupro, ou do assassinato, ou da violência sexual contra crianças é uma questão de ponto de vista "pessoal" de alguém, envolvendo um "intervalo contínuo", e que nós não poderíamos ter, em relação a esses atos, princípios morais "fundamentalistas" que fossem aplicáveis de forma geral e que nos proibissem completamente de explorar humanos de maneiras particulares.

Mas, quando se trata dos animais, não há problema em adotar o ponto de vista de que é tudo uma questão de alguma variante do "who you are space".

O ponto de vista de Harper aqui é remanescente de alguns escritores ecofeministas, como Carol Adams, que alegou que princípios morais universalizáveis eram patriarcais e, portanto, questionáveis. Mas, não há ecofeminista (nem ninguém) que rejeitaria o princípio moral universalizável de que nenhuma mulher deveria ser sujeita a contato sexual sem seu consentimento. É apenas quando nós falamos sobre animais que nós temos um problema com a ideia de estabelecer limites claros, que descartam toda exploração que envolve não humanos.

Outro exemplo de como os chamados "veganos interseccionalistas" não promovem o veganismo como uma base moral é encontrado na postura do Black Vegans Rock ("BRV"), um grupo que inclui Harper e outros. O BVR é um grupo recente, que destaca os esforços e empreendimentos de negros veganos.

Em sua Declaração de Objetivos, o BVR diz:

Nós temos como objetivo congregar a comunidade negra vegana por meio do foco em nossa diversidade, ao invés do foco em nossas diferenças.

Embora nós possamos ser veganos por diferentes razões, e embora possamos estar, cada um de nós, em fases distintas de nossa jornada ativista/vegana, nosso objetivo é destacar quão poderosos podemos ser quando nos unimos e celebramos nosso brilhantismo.

As pessoas podem ter dietas veganas por todos os tipos de razões, mas podem ainda participar da exploração animal, dependendo de onde elas estão em sua "jornada". A expressão "jornada vegana" é, claro, juntamente com "fundamentalismo vegano", uma das expressões que vemos mais frequentemente sendo usada pelas instituições animais de caridade para desabonar a ideia de veganismo como uma base moral. Onde uma pessoa está em sua "jornada vegana" depende, nas palavras de Harper, do "who you are space". Uma pessoa que se alimenta de uma dieta vegana por razões de saúde, mas que tira a noite de sábado de folga para, nas palavras de Peter Singer, "permitir-se o luxo de não ser vegana naquela noite" é "vegana", na opinião do BVR? E se aquilo for o "who you are space" daquela pessoa?

De qualquer forma, fica óbvio que essa Declaração de Objetivos é clara desde o início: o BVR não promove o veganismo como um imperativo moral.

Na seção de perguntas frequentes, eles afirmam estão dispostos a discutir a apresentação de vegetarianos em seu site, desde que a organização que esteja solicitando apresentação "ofereça serviços a vegetarianos e veganos, ou lide com negros veganos de alguma forma".

O vegetarianismo não é um ponto de vista moralmente coerente. Não é possível distinguir moralmente entre carne e outros produtos de origem animal, tais como laticínios, ovos, etc. Apresentar uma organização que vegetarianismo é promover, explicitamente, a exploração animal. Nós acharíamos apropriado promover uma organização que ostensivamente se opõe à violência contra crianças, mas "oferece serviços àqueles que rejeitam a violência contra crianças e àqueles que não a rejeitam"? Não, é claro que não.

A fundadora do BVR, Aph Ko, tem outro website, no qual ela tem um ensaio, chamado “#BlackVegansRock: 100 Black Vegans to Check Out” (#BlackVegansRock: 100 Negros Veganos para Conhecer). Muitos dos negros "veganos" nessa lista parecem ser veganos somente com relação a dieta, e somente por razões de saúde. Os perfis dessas pessoas também informam que elas foram vegetarianas antes de tornarem veganas, ou discutem quanto tempo elas foram vegetarianas antes de se tornarem veganas, como se isso tivesse alguma relevância para o veganismo.

Eu chamo atenção para o fato de que uma das negras veganas que o BVR nos sugere conhecer é Robin Quivers. Ko afirma que "Robin é conhecida por ser o braço direito de Howard Stern em seu programa de rádio. O que muitas pessoas não sabem sobre ela é que ela tem sido vegana desde 2007, devido a várias questões de saúde". Em minha opinião, o programa de Howard Stern é um dos programas mais reacionários na mídia moderna e Quivers é uma apologista da misoginia e racismo daquele programa.

Eu estou surpreso por Ko aparentemente não perceber o problema aqui. O fato de que ela adicionou à lista um aviso legal de que ela "pessoalmente" não acha que as pessoas que estão na sua lista são necessariamente "ativistas políticos", a inclusão de pessoas como Quivers torna difícil compreender a alegação dela de que o veganismo é uma questão de justiça social. E torna difícil compreender alegações, feitas por veganos essencialistas, de que Ko e BVR estão oferecendo uma alternativa mais progressista do que a Abordagem Abolicionista.

Syl Ko, outro membro do Conselho do BVR, expressa o relativismo moral dos veganos essencialitstas e sua rejeição do veganismo como base moral quando ela diz que pessoas de cor ou outros grupos marginalizados não querem que veganos brancos "nos doutrinem sobre aquilo com que deveríamos nos importar, nem porque ou como". Soa familiar? Isso é exatamente o que os bem-estaristas/neobem-estaristas dizem: veganos não podem adotar o ponto de vista de que o veganismo é um imperativo moral porque nós não podemos doutrinar as pessoas. Mas, se a exploração animal é moralmente errada, então não é uma questão de alguém doutrinar outrem. É uma questão de promover um princípio moral sólido de que a pessoalidade moral de animais não humanos requer o veganismo como um mínimo.

Pax Ahimsa Gethen, também membro do Conselho do BVR, é um ativista proeminente em um grupo chamado DxE, que explicitamente rejeita o veganismo como base moral e cujo líder afirma que o ativismo vegano é "prejudicial para o movimento pelos direitos animais". DxE busca alianças com as entidades corporativas bem-estaristas/neobem-estaristas. (Nota adicionada em 13/01/2016: Gethen alega que não está mais ativamente associado ao DxE. Mas, como Gethen deixa claro aqui, isso tem a ver com alegações de mau comportamento no DxE e outras questões, e não tem nada a ver qualquer objeção que eles (o pronome favorito de Gethen) têm com relação ao status do DxE como uma organização neobem-estarista que rejeita a ideia de veganismo como base moral.

De fato, em sua explicação, Gethen reafirma que eles se envolveram com DxE quando o líder do DxE, Wayne Hsiung, foi desconvidado para falar no World Vegan Summit 2015. O organizador do Summit, Bob Linden, desconvidou Hsiung após tomar conhecimento das afirmações de Hsiung que criticavam o ativismo vegano e seus comentários endossando as grandes corporações neobem-estaristas de caridade e buscando trabalhar com elas. Gethen se opôs à ideia de ter sido desconvidado. Gethen publicou outras objeções ao meu ponto de vista crítico daqueles que apoiam ou promovem instituições de caridade bem-estaristas que promovem "exploração feliz", tais como os grupos que expressam "apreciação e apoio" ao programa de exploração feliz do Whole Foods.)

Veganos essencialistas possuem um ponto de vista sobre o veganismo que não é diferente do ponto de vista bem-estarista/neobem-estarista.

Ambos rejeitam o veganismo como base moral.

Ambos rejeitam a ideia de que o veganismo é algo que somos obrigados a fazer para reconhecer e respeitar o status moral dos animais não humanos.

Ambos rotulam o veganismo como base moral como sendo "fundamentalismo vegano".

Ambos falam sobre o veganismo como uma questão de "jornadas". Veganos essencialistas posicionam-se de igual para igual com os bem-estaristas/neobem-estaristas.

E é precisamente por isso que um dos patrocinadores da vindoura Intersectional Justice Conference (Conferência de Justiça Interseccional), que vai incluir a fundadora do BVR, Aph Ko, Syl Ko e outros membros do Conselho do BVR, além de outros veganos essencialistas, é ninguém menos que The Humane Society of the United States (A Sociedade Humanitária dos Estados Unidos).

Conforme eu explico e documento (ver link do documento no texto original em inglês), HSUS promove a "exploração feliz", patrocina eventos nos quais carne e outros alimentos de origem animal são servidos, emprega um criador de porcos como Diretor Político do Fundo Legislativo do HSUS, a tem como CEO e Presidente Wayne Pacelle, que pertence ao Conselho da Global Animal Partnership (Parceria Animal Global), a organização que formula os padrões para o programa "Classificação de Bem-Estar Animal em 5 Passos" usado pelo Whole Foods, que classifica o nível de sofrimento animal que o consumidor deseja comprar.

A Conferência também tem apoio do Northwest Animal Rights Network (Rede de Direitos Animais do Noroeste), que promove reformas bem-estaristas e que se liga à entidades como HSUS, Farm Sanctuary, Farm Animal Rights Movement, e basicamente todas as instituições de caridade que estão por aí, assim como a uma pessoa que continuamente e explicitamente promove a violência contra pessoas.

A fundadora do BVR, Aph Ko, reclama que "o veganismo como movimento de justiça social tem sido transformado em uma empresa por pessoas brancas".

No entanto, ela palestra em uma conferência patrocinada pela HSUS, que é tão branca e tão empresarial quanto é possível ser -- e tão a favor da exploração animal quanto é possível ser. Se esses veganos essencialistas fossem realmente contrários à exploração animal e promovessem o veganismo como base moral, eles aceitariam financiamento da HSUS e outros que promovem a "exploração feliz" e a reforma bem-estarista, e publicamente demonstrariam apreço por essas organizações?

Pense sobre essa questão em um contexto humano. Aqueles que absolutamente se opõem ao racismo aceitariam financiamento e promoveriam organizações que defendem o racismo? Aqueles que se opõem à violência sexual contra crianças aceitariam o patrocínio de uma organização que promove relações sexuais com crianças? Aqueles que se opõem absolutamente a toda violência contra mulheres aceitariam patrocínio de uma organização que promove violência contra mulheres?

Não, é claro que não.

Mas, esses veganos essencialistas não enxergam nenhum problema em fazer exatamente isso no contexto não humano. Eu destaco que um dos homens brancos que falarão na Intersectional Justice Conference, Will Tuttle, é uma das pessoas que me repreendeu por me manifestar contra o antissemitismo claro da campanha Kapparos. Ah, quão seletiva é essa suposta "justiça interseccional"!

De uma forma ou de outra, quando animais estão envolvidos, os veganos essencialistas não possuem quaisquer bases ou imperativos morais. Como Harper disse, é tudo uma questão do "who you are space". Afirmar que é uma questão de princípios morais que eliminam a justificativa moral de qualquer exploração animal é, como Harper diz, "fundamentalismo vegano". A HSUS e todos os outros grupos bem-estaristas/neobem-estaristas estão de acordo com isso; esse é exatamente o ponto de vista deles.

E eu não me importo se é Breeze Harper ou Wayne Pacelle, Presidente e CEO da HSUS, que rejeita o veganismo como base moral, ou se refere a ele como "fundamentalismo". Esse ponto de vista é errado, não importa quem faz a afirmação.

Independentemente do que mais possamos dizer, a versão específica de "justiça interseccional" discutida acima não significa justiça para os animais não humanos.

IV. Veganos essencialistas: apenas alguns humanos contam

Veganos essencialistas não apenas abraçam o essencialismo na forma de especismo na medida em que concedem valor moral menor aos animais do que aos humanos somente em razão da espécie. Eles o abraçam onde os seres humanos estão envolvidos e concedem valor moral maior à certos humanos com base em características que são moralmente irrelevantes. De acordo com estes veganos essencialistas, apenas alguns humanos podem falar sobre questões de justiça social e a questão de quem pode falar não é determinada pelo o que dizem, mas por quem eles são. Como veremos, esses veganos essencialistas afirmam que os únicos oradores legítimos são mulheres, pessoas de cor, ou aqueles de outros grupos marginalizados que concordam com a posição deles, enquanto que mulheres, pessoas de cor, ou aqueles de outras minorias que não concordam com sua posição essencialista são eles próprios "tokens" e não oradores legítimos.

Por exemplo, a jornalista australiana e vegana essencialista Rubi Hamad escreveu recentemente um ensaio no qual ela execrou a "comunidade vegana predominante", por não enxergar as conexões entre a opressão humana e a exploração animal. Concordo com ela nesse ponto e tenho dito isso desde 1990. Hamad identificou então vários homens que supostamente são veganos, mas que promovem a misoginia e a violência. Um desses homens é alguém que tenho criticado há anos por dar declarações misóginas e, quando não, violentas, inclusive declarações preconceituosas sobre palestinos. O outro homem a que ela se referiu era alguém a quem eu nunca tinha ouvido falar antes do incidente sobre o qual ela estava escrevendo. Mas eu concordo com Hamad 100% com relação a esta questão.

Contudo, eu fiquei muito surpreso quando Hamad então afirmou:

Eu estou muito frustrada que um movimento que é composto em sua maioria por mulheres, eleva, todavia, homens brancos às mais altas posições de liderança. Homens como o Professor Gary Francione que acha que é seu papel pregar às mulheres sobre se elas podem ou não chamarem a si mesmas de feministas.

E como eu estava “pregando” às mulheres? Foi esta afirmação:

Se você é feminista e não é vegana/o, você está ignorando a exploração das fêmeas não humanas e a comercialização dos seus processos reprodutivos, como também a destruição do relacionamento com os seus bebês.

Portanto, não olharemos para o que eu estou dizendo. Nós não discutiremos a minha posição de que alguém que é feminista, mas não é vegano, está arbitrariamente ignorando a comercialização de fêmeas não humanas. Nós não discutiremos se a análise de interseccionalidade milita a favor, reconhecendo as formas específicas em que a misoginia de um modo geral orienta o uso das fêmeas não humanas. Nós podemos simplesmente ignorar a minha posição, porque eu sou um homem branco.

Mas, como isso é de alguma forma diferente do essencialismo ao qual os veganos essencialistas se opõem, porque resultou em eles não terem voz no "movimento vegano predominante"? Os essencialistas reclamam com razão que o movimento animal "predominante" excluiu suas vozes por causa de quem eles são e não por causa do que eles dizem. Como é que isto representa qualquer avanço sobre essa posição? Como é que esta visão de "justiça interseccional" faz qualquer coisa além de substituir um grupo de vozes opressivas por outro?

E, mais uma vez, vemos que esse essencialismo resulta em uma visão de "justiça interseccional" que lança os animais para debaixo do ônibus.

Hamad está triste pelo fato de que muitas mulheres usam a Abordagem Abolicionista para orientar seu ativismo. Então, qual é a alternativa? Hamad nos diz que Breeze Harper é uma alternativa. Mas, como vimos acima, Harper rejeita, de forma muito clara e explicita, o veganismo como base moral e eu, muito clara e explicitamente, promovo o veganismo como um imperativo moral. Eu poderia entender se Hamad argumentasse que ambas as posições precisam ser examinadas. Mas, para descartar a minha posição porque eu sou um homem branco é essencialismo que leva a rejeitar a posição que é mais protetora dos animais por causa da raça e do sexo do orador. E como isso resulta em promover justiça para os animais?

Hamad sugere a ecofeminista Carol Adams como outra alternativa. Gostaria de sugerir (como outros o fizeram) que o trabalho de Adams ao longo dos anos não tem sido um modelo de clareza em termos de fornecer orientação normativa real sobre quais são as nossas obrigações morais para com os animais. Por exemplo, como escrevi no passado, Adams rejeitou a ideia de direitos morais e regras morais universalizáveis em favor de uma "ética do cuidado" vaga e isso a levou a promover posições que podem acomodar a exploração animal. Eu noto que, embora Adams promova o veganismo mais do que ela costumava fazê-lo, ela também descreve o vegetarianismo — e não apenas o veganismo— como uma posição normativamente desejável.

Como eu mencionei acima, consumir produtos de origem animal, além da carne, envolve a exploração animal que não é qualitativamente diferente da exploração inerente em comer carne. Ser vegetariano não é uma posição mais moralmente justificável do que é a posição de ser onívoro. Aqueles que consideram que os animais têm valor moral, simplesmente não podem sustentar que o vegetarianismo é algo além de uma manifestação da participação direta na exploração do vulnerável.

Mais uma vez, Hamad não está sugerindo que deveríamos examinar a aceitação do vegetarianismo que Adams propõe e minha rejeição do mesmo e discutir as diferenças. Ela não está sugerindo que examinemos as visões de Adams sobre a natureza da ética e meus pontos de vista, a fim de determinar qual visão fornece a justiça mais apropriada para os animais. Ela está alegando que podemos dispensar meu ponto de vista completamente e abraçar a visão de Adams, porque ela é mulher e eu sou homem.

Parece haver algumas diferenças entre a posição de Adams e a posição de Harper. Hamad não nos diz como resolver quaisquer diferenças entre elas do ponto de vista da justiça para os animais, com o intuito de guiar nossa própria posição moral e para orientar o nosso ativismo. Talvez devamos atribuir mais pontos do essencialismo a Harper, porque ela é uma mulher e uma pessoa de cor. Adams é uma mulher branca. A resolução não pode ser baseada em princípio porque Hamad deixou claro que o princípio é irrelevante — só a identidade é relevante.

No entanto, a posição vegana essencialista, como representada por Hamad, é ainda mais preocupante. Hamad fala sobre como um movimento predominantemente do sexo feminino "eleva" um homem branco como eu para uma posição de liderança. Não tenho certeza o que ela quer dizer. Eu não "lidero" coisa alguma. Eu sou um acadêmico. Por muitos anos, eu fui um advogado atuante, além de ser um acadêmico, e eu representava defensores de animais como uma atividade voluntária. Contudo, eu não tenho nenhuma organização. Eu não tenho nenhum funcionário. Ao contrário de alguns veganos essencialistas, eu não busco ou aceito doações ou peço financiamento coletivo. Ninguém me "elevou" a nenhuma posição de "liderança".

Há muitas mulheres e pessoas de cor que pensam que a Abordagem Abolicionista dos Direitos Animais representa uma posição sólida e a promovem em seu ativismo. Eles abraçam seu igualitarismo radical. Hamad está "frustrada" com o quê? E por qual motivo? Será que as vozes das mulheres e das pessoas de cor que apoiam a Abordagem Abolicionista não contam? Eles não estão autorizados a optar a fazer seu ativismo baseado por ideias que eu desenvolvi?

A resposta é não. Para Hamad, e para outros veganos essencialistas, as únicas vozes de mulheres e de pessoas de cor que são importantes são as que, como Hamad, descartam o que estou dizendo, porque eu sou um homem branco, e não há qualquer consideração pelo conteúdo do que eu sou dizendo. Se eles não optarem a fazer seu ativismo guiado pelo o que quer que seja que Harper ou Adams propõem, então eles simplesmente não contam. Eles são julgados como autômatos irracionais que, em virtude de uma decisão embasada em que acreditam que a Abordagem Abolicionista é a teoria mais sensata para orientar seu ativismo, têm "frustrado" os veganos essencialistas.

Hamad, a quem eu respondi aqui (ver resposta no texto origina em inglês), não é a única entre os veganos essencialistas em tomar a posição de que apenas algumas mulheres and algumas pessoas de cor importam. Outros veganos essencialistas descartaram de forma semelhante mulheres que se identificam como feministas e que abraçam a Abordagem Abolicionista, e caracterizaram como "tokens" pessoas de cor que usam a Abordagem Abolicionista para orientar o seu ativismo.

Pax Ahimsa Gethen, membro do conselho do Black Vegans Rock, caracterizou as diversas comunidades de base que compõem a Abordagem Abolicionista como um "clube de meninos brancos." Gethen disse isto no contexto de defender outras duas pessoas veganas essencialistas que se envolveram em preconceito ostensivo e explícito, que foi documentado.

Concordo plenamente que todos deveriam estar conscientes dos privilégios de que gozam, incluindo o privilégio de classe. O que eu não concordo, é com a ideia defendida por um número excessivo de veganos essencialistas de que apenas algumas pessoas de cor podem opinar sobre questões de racismo; apenas algumas mulheres podem opinar sobre questões de sexismo. E aqueles que podem opinar não são determinados pela substância do que eles expressam, mas apenas se concordam com o essencialismo que permite a caracterização da Abordagem Abolicionista como “clube de meninos [sic] brancos", simplesmente porque eu sou a pessoa que desenvolveu a teoria ao longo dos últimos 30 anos e sou um homem branco. Essas mulheres e pessoas de cor que estão envolvidos na comunidade da Abordagem Abolicionista são simplesmente "tokens" para serem tratados com desprezo e deixados invisíveis, da mesma forma que os veganos essencialistas corretamente afirmam que aconteceu com as mulheres e as pessoas de cor no movimento bem-estarista/neobem-estarista “predominante”. Não há respeito demonstrado pelo fato de que essas mulheres e pessoas de cor tenham escolhido racionalmente usar a Abordagem Abolicionista para orientar o seu ativismo. É muito decepcionante —e diz muito a respeito do grupo — que BVR tenha alguém que defenda tais pontos de vista em seu Conselho.

Com demasiada frequência, qualquer desacordo com veganos essencialistas resulta em uma carga de racismo, sexismo, ou algum outro tipo de acusação. Isto é particularmente desconcertante quando os acusados de promover racismo, sexismo, ou outras posições questionáveis são pessoas de cor, mulheres, ou outros membros de minorias vulneráveis, que simplesmente não abraçarão o essencialismo dos veganos essencialistas.

Um homem transexual que se identifica como gay, que tem vivido como mulher há mais de trinta anos e que abraça a Abordagem Abolicionista, discordou de várias declarações que estavam na página de uma vegana essencialista. Ao invés de discutir a substância do que ele estava dizendo, ele foi ignorado por "mansplaining" —quando um homem quer ensinar a uma mulher algo que ela já sabe e demonstra claramente saber, mas ele insiste porque, para ele, uma mulher necessariamente não teria capacidade intelectual para compreender um determinado assunto; e como homem, é impossível que você não saiba melhor do que ela— e por expressar seu “privilégio de ser homem, branco, heterossexual." Quando ele protestou por ser ignorado e pelo comportamento prejudicial que ele experenciou, e explicou sua identidade sexual e de gênero, ele recebeu um pedido de desculpas tépido, mas, em seguida, toda postagem foi apagada.

Tenho uma grande expectativa de que alguns veganos essencialistas dirão que estou alegando discriminação inversa por parte dos veganos essencialistas. Uma afirmação dessas seria claramente falsa, mas alguns veganos essencialistas não veem nenhum problema em deturpar deliberadamente a minha posição. Em todo o caso, eu não acredito que pessoas de cor possam ser racistas em uma sociedade branca racista. Eu não acredito que mulheres possam ser sexistas em uma sociedade patriarcal.

Como afirmei bem no início deste ensaio, o racismo e o sexismo tem a ver com alocações institucionais de poder com base na raça ou no sexo. Racismo e sexismo envolvem poder institucional para afetar negativamente outros. O problema é que, em uma sociedade racista e sexista, pessoas de cor e mulheres estão, em grande parte, sem poder institucional. Então, pessoas Negras não podem ser racistas nesta sociedade; mulheres não podem ser sexista nesta sociedade. Elas não podem se envolver em discriminação inversa, porque elas não têm nenhum poder institucional para discriminar.

No entanto, pessoas de cor e mulheres podem manter preconceitos abusivos e injustos. Elas podem ser intolerantes. E ignorar os pontos de vista de pessoas com base apenas em sua raça ou sexo ou gênero, ou afirmar que somente mulheres ou pessoas de cor ou pessoas trans cujas visões importam são aqueles que estão dispostos a apoiar a ideia de que qualquer coisa que um homem branco diz é errado independentemente da substância é nada mais do que preconceito e intolerância. É decepcionante que, além de endossar o especismo, muitos dos veganos essencialistas envolvem-se em intolerância direta.

Conectar valor apenas com características pessoais, sem uma referência à classe ou ao conteúdo de caráter individual, resultou em uma política de identidade que nos levou a algumas conclusões obviamente erradas. Isso nos leva a crer que pessoas reacionárias, como Barack Obama, Condoleezza Rice, Clarence Thomas, Ted Cruz, e Margaret Thatcher têm um discernimento mais profundo sobre a opressão como um sistema e como combatê-lo —bem como um maior empenho na luta contra ele—do que ativistas como Noam Chomsky ou Chris Hedges.

Isso não significa que Obama, Rice, Thomas, Cruz e Thatcher não foram vítimas de violência por causa de quem eles são. Também não significa que as suas experiências individuais dessa violência não sejam relevantes. Significa simplesmente que a justiça —a forma como pensamos sobre ela, nosso compromisso de agir em relação a ela e nosso plano para assegurá-la— não pode ser resolvida com o reconhecimento da autoridade dos oradores com base em uma lista de checagem do tipo "biológico, portanto, empírico, portanto, moral".

Embora a política de identidade foi proveniente de boas intenções, essencialistas tornaram-se tão reacionários quanto aqueles que eles criticam, na medida em que não rejeitam as identidades limitantes, fixas, como "branco, mulher heterossexual" ou "homem negro, gay", construídas pelo sistema dominante opressivo e que refletem as estruturas sociais de poder existentes, mas simplesmente as invertem para criar novas hierarquias e novas formas de coisificação e otherization (otrização- "implica um procedimento intersociocultural que se constitui de práticas discursivas de enaltecimento de uma identidade positivada de certo grupo e a estigmatização e o rebaixamento, com violência, de outro") com base em características físicas superficiais. De modo que agora, por exemplo, uma pessoa que é um “homem branco, heterossexual" torna-se o "outro", o "inimigo", totalmente definido por essa categoria, independentemente de saber se ele apoia o racismo, o sexismo ou o heterossexismo. Mesmo que ele se oponha fortemente ao racismo, sexismo e heterossexismo em seus valores e na forma como ele vive, ele é culpado pelo simples fato de ser um homem branco, heterossexual e qualquer coisa que ele diga pode ser descartada ou interpretada como "racista" e "sexista".

Esta posição essencialista não está libertando ninguém.

É uma armadilha e o fim da linha — uma variação do sistema opressivo que alegam rejeitar. Da mesma forma, na esfera da ética animal, veganos essencialistas não fazem nada mais do que produzir uma variação da posição bem-estarista/neobem-estarista que não só excluem os não humanos de serem membros plenos da comunidade moral, mas também avaliam as posições dos outros baseados não em sua substância, mas em sua identidade.

Se queremos justiça, devemos ter: (1) formas de sintetizar as experiências individuais em teorias mais amplas de justiça e como deveríamos tratar questões de injustiça, assim como feministas, tal como bell hooks ,tentaram fazer, e também (2) um compromisso de agir dentro dessas teorias em um esforço para acabar com a violência e a opressão. É por isso que a Abordagem Abolicionista requer o veganismo. Teoria e experiência são meios e não fins. Teoria, experiência e boas intenções sem ação não são suficientes. Devemos estar comprometidos a fazer as coisas certas para promover a justiça na prática.

Veganos essencialistas falam sobre o privilégio que vem da raça, sexo, genêro, etc., mas eles ignoram amplamente o privilégio de classe. Muitos veganos essencialistas são solidamente pessoas de classe média. Muitos têm uma grande quantidade de ensino superior. Mas eles abraçam uma política de identidade dissociada de qualquer conceito de justiça econômica substancial e a injustiça e desigualdade inerentes que resultam em uma distribuição grotescamente injusta dos recursos. Ligando valor apenas com características pessoais e sem uma referência à classe nos leva a crer que uma pessoa de classe média de cor com um PhD tem mais a dizer sobre a opressão do que uma pessoa pobre — negra ou branca.

Curiosamente, veganos essencialistas não tem nenhum problema com as pessoas brancas que abraçam o seu essencialismo e se juntarão a eles na promoção da política de identidade. Não há simplesmente nenhuma posição de princípio que articula uma teoria da justiça para não humanos ou humanos. No final, parece que o veganismo essencialista é nada mais do que um grupo de pessoas que procuram criar uma carreira, um empreendedorismo, e outras oportunidades para si próprios. Não tem nada a ver com a justiça para os animais ou com assegurar que todas as mulheres e pessoas de cor —em oposição a somente aquelas que abraçam o essencialismo e a sua política de identidade resultante —participem de um movimento de justiça social para os animais.

Veganos essencialistas jogam animais para baixo do ônibus e simplesmente reorganizam o assento no ônibus. Mulheres e pessoas de cor que não concordam com as políticas de identidade de essencialismo sentam-se na parte de trás com todos os homens brancos. Os veganos essencialistas dirigem o ônibus e sentam-se na parte da frente enquanto viajam para as suas conferências financiadas pela HSUS e nas quais Howard Stern e Robin Quivers proporcionarão entretenimento após o jantar.

A Abordagem Abolicionista sustenta que os seres não humanos deveriam sentar-se no ônibus com os seres humanos. Justiça para os não humanos não é uma questão de algum tipo de absurdo relativista como "who you are space" (aparentemente isso quer dizer que a moralidade depende de “quem você é” e em qual “espaço” a sua mente está). É uma questão de princípios morais que tornam toda a exploração animal injustificável. E não existe uma hierarquia de assentos no ônibus Abolicionista. Temos uma política de assentos radicalmente igualitária e é tudo uma questão do que está em seu coração e não uma questão de qualquer característica física irrelevante.

V. Veganismo Essencialista e Analogias de escravidão e estupro

Desde o início dos anos 90, tenho argumentado que a regulamentação da exploração animal não só é imoral (se é moralmente errado explorar os animais, é errado promover a suposta exploração "humanitária" dos animais), mas está, como uma questão prática, condenada ao fracasso porque o status de propriedade dos animais significa que os interesses dos animais nunca podem prevalecer sobre os interesses dos proprietários humanos. Argumentei que a regulamentação da exploração animal fracassa pela mesma razão que a regulamentação da escravidão fracassou.

Alguns veganos essencialistas parecem pensar que discurso deste tipo apresenta um problema de "apropriação" porque somente Negros podem falar adequadamente sobre a escravidão. Mais uma vez, vemos o essencialismo elevar a sua cabeça feia. Não podemos olhar para o que está sendo dito, só podemos olhar para quem o está dizendo. As pessoas brancas não podem falar sobre a escravidão. Apenas as pessoas Negras podem.

Mas, a posição de que os Negros têm algum tipo de interesse de propriedade no discurso sobre a escravidão ignora que a escravidão baseada em raça que existiu nos Estados Unidos (ou no Ocidente em geral) entre 1600 e 1800 não foi a única escravidão que já existiu. A escravidão existia antes dessa data e existe agora. E a grande maioria dessa escravidão não tem sido relacionada à raça, mas à tribo e à religião.

Além disso, mesmo no caso da escravidão baseada em raça nos Estados Unidos, deixo claro que são os mecanismos legais, políticos e sociais da escravidão que são análogos ao uso de animais como propriedade. É essa discussão que revela os requisitos da abolição, em vez da reforma bem-estarista. A analogia é mais fortemente focada nos mecanismos de opressão, e não apenas no sofrimento resultante. Isto focaliza a analogia dos direitos animais, em vez do bem-estar animal. Os veganos essencialistas acham que a analogia da escravidão está relacionada totalmente com o sofrimento dos escravos. Isso está incorreto.

Eu sempre fui crítico aos grupos bem-estaristas/neobem-estaristas que justapõem imagens de pessoas negras linchadas com imagens ou outras representações de animais pendurados em matadouros, da mesma forma que eu me oponho a comparar a exploração animal com o Holocausto. Comparar males desta forma não resulta em avançar na compreensão e tem um grande potencial para mal-entendidos e ofensas. Mas o fato — e é um fato— permanece de que há paralelos importantes entre a regulamentação da escravidão e a regulamentação da exploração animal.

Os afro-americanos têm competência com base na experiência no legado da escravidão, mas todos nós devemos compreender os mecanismos e princípios de apoio da escravidão —humana e não humana— se nós queremos livrar o mundo deste mal. A regulamentação da exploração animal fracassa exatamente pelas mesmas razões que a regulamentação da escravidão fracassou. Se um ser senciente é propriedade, os interesses daquele ser sempre contarão menos do que os interesses dos proprietários daquela propriedade. Em praticamente todas as situações de conflito, a propriedade deve perder e o proprietário deve prevalecer, ou, então, não há nenhuma instituição de propriedade de seres desse tipo (seja humano ou não humano). Em ambas, exploração animal e escravidão, os seres são tratados como tendo apenas um valor extrínseco ou externo; eles não têm valor inerente ou intrínseco. Eles são apenas coisas. A escravidão (motivada com base na raça e a que não tem base na raça) e os animais como propriedade são completamente análogos em formas jurídicas e econômicas.

Se houver qualquer diferença, como uma questão conceitual, não é entre escravidão e exploração animal. Aqui, o ajuste analógico é perfeito e inescapável. Muitos bem-estaristas/neobem-estaristas comparam a regulamentação da exploração animal, que eles promovem, com a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Este último envolveu —e continua a envolver porque a igualdade está muito longe de acontecer— a questão de como tratar pessoas de forma justa. Animais ainda são propriedade. Eles não têm pessoalidade moral. Nós não podemos falar sobre como tratar coisas de uma forma "justa".

Quando falo sobre "abolição", eu não estou usando esse termo para me referir à experiência dos escravos. Eu estou falando sobre o mecanismo que foi utilizado no passado, e deve ser usado agora, para desmantelar qualquer instituição de propriedade que estabelece e perpetua o status de seres sencientes usados exclusivamente como recursos de outros.

Em todo o caso, dizer que tal análise "apropria-se" do discurso, que é próprio de pessoas negras por si só, é, eu receio, transparentemente absurdo. Eu não estou usando a analogia da escravidão para desacreditar a experiência dos escravos. Eu estou usando isso porque a analogia nos ajuda a compreender as razões legais, jurisprudenciais e econômicas do porquê a regulamentação de seres sencientes que são considerados propriedade não pode funcionar.

Mesmo aqueles veganos essencialistas que tomam uma posição mais moderada, e reconhecem que pode ser aceitável que brancos falem sobre a escravidão, assumem que as discussões sobre a escravidão "centralizam a brancura" principalmente, e representam expressões de "fragilidade branca". O problema é que, em uma sociedade racista, qualquer tema pode ser usado para fazer isso. Em todo o caso, certamente não é assim que a escravidão é usada ou tem sido usada no paradigma Abolicionista ao longo dos últimos 25 anos. A escravidão e a exploração animal compartilham características importantes que tornam a sua regulamentação impossível como uma questão prática e requer a sua abolição (e reivindicações feitas a favor do reconhecimento de direitos e abolição) como uma questão moral.

Eu deveria salientar aqui, em conexão com a minha observação anterior sobre a classe ser tão importante, talvez mais importante do que qualquer outro fator, que o comércio escravista ocidental foi possível graças a um abrangente comércio escravista de Africanos nativos que tinha pessoas Negras escravizando outras pessoas Negras e, então, vendendo esses escravos para os europeus ocidentais brancos e ganhando uma grande quantidade de dinheiro com isso.

Outros veganos essencialistas declaram que os homens não podem discutir o estupro no contexto da exploração animal. Ou seja, eles não podem fazer uma analogia entre a violação dos direitos fundamentais que ocorre no contexto de estupro e a violação dos direitos fundamentais que ocorre quando nós matamos e consumimos animais.

Como no caso da escravidão, quando eu uso o estupro como um conceito analógico, não estou usando-o para desacreditar a experiência de vítimas de estupro. Eu estou usando a analogia porque acredito que ela se encaixa e pode nos ajudar a entender a estrutura profunda da exploração animal.

Em minha opinião, o uso de palavras e conceitos em contextos como este é uma questão de analogia. Nossas experiências formatam a maneira como entendemos as coisas, mas, no final, a única questão relevante é se a analogia faz sentido. Tendo visitado fazendas leiteiras e visto a maneira como as vacas ficam prenhas e a maneira como elas têm de ser seguradas, porque elas não gostam do que está acontecendo, eu acredito que é análogo ao estupro da mesma forma que muitas mulheres que conheço realmente veem o que se passa em fazendas leiteiras, inclusive mulheres que foram vítimas de estupro. É um abuso sexual; as vacas não consentem.

Estupro é uma violação de um direito humano fundamental. É diferente de violações dos direitos não fundamentais. É análogo às violações dos direitos fundamentais que constituem o uso de animais domesticados. A analogia se mantém. Se alguém é ofendido pela analogia e se opõe ao seu uso, precisamos saber porquê a analogia não se sustenta e, em muitos anos fazendo este trabalho, eu ainda não ouvi algo além de alguma versão do tipo, "mulheres humanas são mais importantes moralmente. "

Estive recentemente em uma conferência acadêmica em que a ética animal foi discutida, mas apenas como parte do evento. Argumentei que falar sobre a exploração "feliz" era análogo a falar sobre o estupro "feliz" ou sobre o abuso sexual infantil "feliz". Uma mulher que se identificou como uma feminista se opôs à minha analogia. Perguntei-lhe o porquê da oposição. Tudo que ela pôde dizer era que ela não achava que a exploração animal era tão "séria" quanto ao estupro. Não tenho a certeza o que ela quis dizer com isso e ela não respondeu quando eu perguntei o que ela queria dizer. Não há nenhuma resposta não-especista a essa pergunta.

E se não podemos falar sobre certas questões -- mesmo que na qualidade de analogias relevantes -- caso não tenhamos experiência sobre elas, então nenhum de nós pode falar sobre a exploração dos animais não humanos.

VI. Conclusão

Qualquer diferença entre a posição vegana essencialista como ela é promovida por pessoas discutidas neste ensaio e o modelo bem-estarista/neobem-estarista é superficial.

O resultado é o mesmo.

Nós acabamos substituindo um grupo—os "líderes" das grandes instituições corporativas de caridade que rejeitam o veganismo como base moral—por outro grupo de "líderes" — os do veganismo essencialista. Os dois grupos rejeitam o veganismo como base moral.

Quando você critica o especismo e outro essencialismo do bem-estarismo/neobem-estarismo, você é chamado de "purista", "fundamentalista" e "divisionista".

Quando você critica o especismo ou outro essencialismo dos veganos essencialistas, você é acusado de "pregar o veganismo ou o fundamentalismo vegano." Mas você também é chamado de "racista", "machista", ou algum outro nome. Se você é uma mulher, uma pessoa de cor, ou uma pessoa de outro grupo marginalizado que critica veganos essencialistas, você é ignorada ou descartada como "token", ou também rotulada de "racista" ou "sexista". Qualquer tentativa de engajar veganos essencialistas de forma substancial ou, Deus me livre, responder aos ataques sem fundamento, é rejeitado com expressões de "fragilidade branca", "mansplaining" (homem explicando, discursando às mulheres), "gaslighting" (fazer com que a mulher pense que ela é louca), ou "assédio".

Eu certamente admito que os veganos essencialistas têm uma gama mais ampla de insultos do que os bem-estaristas/neobem-estaristas. Mas, no que diz respeito a promover o especismo e outras formas de essencialismo, os veganos essencialistas estão no mesmo patamar que os bem-estaristas/neobem-estaristas.

E é precisamente por isso que a HSUS e outros bem-estaristas/ neobem-estaristas estão patrocinando eventos veganos essencialistas.

Aqueles de nós cujo ativismo em nome de animais não humanos e da relação entre direitos humanos e direitos não humanos é orientado e estruturado pela Abordagem Abolicionista dos Direitos Animais continuaremos a criticar e rejeitar o especismo e outras formas de essencialismo independentemente daqueles que nos xingam e de quais nomes nos xingam.

Eu respeitosamente sugiro que, se quisermos alcançar a justiça para os seres humanos e não humanos igualmente, renunciemos à política de identidade e, em vez disso, nos concentremos no que está sendo dito e não em quem está dizendo algo. Deveríamos sempre estar ciente dos privilégios que temos—incluindo o privilégio de classe— e estar alerta para garantir que nossos privilégios não resultem em tomar ou defender posições que são injustas.

Mas, no final, a justiça da posição que defendemos deve ser a preocupação central de qualquer um que acredita em uma moralidade de princípios.

E, com relação ao "o quê" da promoção da justiça—para os seres humanos e não humanos— veganos essencialistas não tem nada de novo para oferecer, e apenas introduziram um novo elenco de personagens para promover o mesmo absurdo reacionário, especista, e, de outra forma, essencialista que a Abordagem Abolicionista rejeita .

Os veganos essencialistas não são os primeiros—e certamente não serão os últimos— a tentar vender alguma messagem não abolicionista, de não veganismo-como-base-moral em uma nova roupagem. No entanto, aqueles que concordam que o veganismo é um imperativo moral e enxergam todas as formas de otherization (otrização- "implica um procedimento intersociocultural que se constitui de práticas discursivas de enaltecimento de uma identidade positivada de certo grupo e a estigmatização e o rebaixamento, com violência, de outro") envolvendo seres humanos e não humanos como moralmente injustificável verão esses esforços pelo o que eles são precisamente.

Para encerrar, eu quero agradecer a meu excelente grupo de moderadores do Facebook, que, embora muitos sejam "tokens", me deram um excelente feedback sobre um esboço anterior deste ensaio. Marianna C. Gonzalez, Vincent Guihan, e Linda McKenzie leram e comentaram sobre o esboço posteriormente, bem como o fez Frances McCormack e minha parceira desde o início de tudo, Anna Charlton.

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Gary L. Francione

Board of Governors Distinguished Professor, Rutgers University

©2016 Gary L. Francione

Texto escrito por Gary L. Francione

Texto original em inglês: http://www.abolitionistapproach.com/essentialism-intersectionality-and-veganism-as-a-moral-baseline-black-vegans-rock-and-the-humane-society-of-the-united-states/#.Vww2LUfarVI (Nota: todas as citações, documentos citados na traducão para o português podem ser encontrados no texto original em inglês)

Tradução para o português autorizada por Gary L. Francione feita por Tibérius O. Bonates e Vera R. Cristofani.