A impossibilidade do tratamento humanitário

Introdução ao Veganismo
Typography

Muitas pessoas dizem que não ficam incomodadas em consumir, vestir e usar produtos animais, porque acreditam que os animais não humanos sejam bem tratados, isto é, que recebam tratamento humanitário e sejam mortos sem dor.

Muitas pessoas dizem que não ficam incomodadas em consumir, vestir e usar produtos animais, porque acreditam que os animais não humanos sejam bem tratados, isto é, que recebam tratamento humanitário e sejam mortos sem dor.

Primeiro, é impossível falar em tratamento humanitário quando esses animais são propriedade dos humanos e são usados como mercadorias, como coisas, e já que certamente todos os esforços são voltados à produtividade e ao lucro. Segundo, a morte, por mais indolor que seja, ainda é um dano para qualquer ser senciente, pois, como nós, eles têm interesse em uma existência continuada e valorizam a vida. Terceiro, através de uma rápida busca dos fatos, vemos que o que acontece com os animais não humanos sencientes a todo momento, nas mais diversas áreas, é bem diferente do que pensamos e seria, sem sombra de dúvida, condenável e considerado tortura se aplicado aos humanos.

Para termos uma ideia, mais de 57 bilhões de animais são mortos anualmente para comida, e nesse número não estão incluídos os animais aquáticos que devem somar mais um trilhão. Com relação ao tratamento que esses animais recebem, no Brasil, por exemplo, milhões de galinhas poedeiras são mantidas em pequenas gaiolas de arame que limitam toda a movimentação, causando, assim, todos os tipos de danos psicológicos e físicos a esses animais.

Granjeiros industriais frequentemente mutilam os animais para diminuir os machucados produzidos pelo confinamento intensivo. Uma dessas mutilações, que ocorre tanto com galinhas poedeiras como com as que são usadas para carne, é o corte ou queima do bico com o intuito de prevenir o canibalismo. As pontas dos dedos das aves também são cortadas para que as unhas e a carne dos dedos não cresçam e fiquem enganchados na malha de arame das gaiolas.

Nas raças de poedeiras, o macho não possui valor econômico e são, portanto, triturados em uma espécie de cortador com lâminas afiadas ou sufocados com gás carbônico. Segundo relatos, os animais agonizam antes da morte. Na cortadeira, muitos sobrevivem gravemente feridos. Na câmara de gás, vídeos mostram como eles tentam respirar antes de morrer.

Quanto aos bovinos de corte, para diminuir o perigo causado pela aglomeração em currais e caminhões, eles são geralmente descornados. Esse processo, que é extremamente doloroso, é feito geralmente com pasta cáustica, ferro em brasa, serras que são usados para arrancar os chifres do crânio. Os touros são castrados com faca, torqueses ou alicates para que fiquem dóceis e tenham a carne macia. Porcos também passam por castração, têm seus rabos amputados e dentes aparados para prevenir mordida em rabos e outros comportamentos provocados por estresse. Na maioria dos casos, não há uso de anestésicos nem analgésicos.

Na criação animal moderna, as fêmeas recebem tratamento como se fossem apenas máquinas reprodutoras, pois são forçadas a ter ciclos hormonais mais rápidos, são inseminadas artificialmente, mantidas constantemente grávidas, separadas dos seus bebês logo após que eles nascem e enviadas ao matadouro quando a capacidade reprodutiva diminui. Os machos também são vitimados. Touros, que são usados para identificar fêmeas no cio, têm seus pênis redirecionados para o lado, amputados ou atados cirurgicamente à parede abdominal para que não consigam copular a vaca.

Alguns bezerros machos nascidos das vacas leiteiras são vendidos imediatamente para o abate e se tornam carne de vitela de qualidade inferior. Outros são abatidos alguns meses mais tarde como vitela “branca” de alta qualidade. Para obtenção dessa carne, os bezerros são confinados em baias onde não conseguem se lamber, coçar ou virar para que não desenvolvam músculos. Para garantir a brancura da carne, eles são alimentados com uma dieta líquida sem fibras que induz à anemia.

Também matamos um número imenso de peixes e outros animais aquáticos. As pessoas não acham que esses animais sofrem quando são fisgados por anzóis ou quando sufocam no ar. No entanto, cientistas confirmam que peixes são sencientes e podem experienciar estados de ansiedade, além de sofrer com o medo tanto quanto com o anzol.

Exemplos de dor, sofrimento, aflição, tortura são infindáveis, e mesmo que conseguíssemos explorar os animais sem que tudo isso fosse causado a eles, o que é praticamente impossível, ainda assim seria errado escravizar, usar e matar esses seres vulneráveis que não estão aqui para sofrer tanta humilhação somente para satisfazer os nossos propósitos. Podemos viver bem sem impor sofrimento, dor e morte ao outro e, com certeza, é isso que deveríamos fazer. Por favor, saia desse ciclo de violência e morte e dê um importante passo em direção à paz adotando o veganismo.

Fonte: Introdução aos Direitos Animais, escrito por Gary L. Francione