As obsoletas campanhas de um só tema

Introdução ao Veganismo
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A oposição às campanhas de um só tema é um dos pontos principais discutidos na teoria abolicionista de direitos animais do filósofo Gary L. Francione.

A oposição às campanhas de um só tema é um dos pontos principais discutidos na teoria abolicionista de direitos animais do filósofo Gary L. Francione.

Essas campanhas obsoletas, promovidas até mesmo por muitos ativistas comprometidos com o veganismo, focam num uso ou prática envolvendo animais. Elas podem ser de dois tipos: regulatórias ou proibitivas.

As campanhas que focam em regulamentar um uso ou uma prática para torná-los mais “humanitários” são claramente rejeitadas pela abordagem abolicionista, porque não fazem absolutamente nada para mudar o status dos animais de propriedade para indivíduos de direito, além de reforçar o status e fundação da ideologia bem-estarista de que os animais são recursos para serem usados por nós contanto que sejam tratados “humanitariamente”. Exemplos dessas campanhas são jaulas maiores ou abate mais “humanitário”.

As campanhas de um só tema que buscam proibir ou abolir um uso ou uma prática em particular, apesar de não apresentarem o mesmo problema das que propõem uso ou prática mais “humanitários”, correm o risco de transmitir a ideia de que certas formas de exploração são piores do que outras. Uma campanha contra a pele, por exemplo, passa a ideia de que a pele causa mais sofrimento aos animais do que o couro ou a lã, quando, na verdade, todo uso de animais impõe tortura, sofrimento e morte horríveis. Campanhas contra a carne também são extremamente problemáticas porque diferenciam a carne de outros produtos animais como leite e ovos.

Segundo a teoria abolicionista de direitos animais, de forma geral, todas campanhas de um só tema tendem a minar a ideia central da posição de direitos de que *qualquer* uso instrumental de animais viola o interesse que os animais têm em não serem tratados como recursos dos humanos. Essas campanhas, além de serem ineficazes teoricamente, não têm tido efeitos práticos. A campanha contra peles, por exemplo, existe há mais de 30 anos. No entanto, a indústria da pele está mais forte do que nunca tanto em vendas quanto em relação à opinião pública.

As dificuldades práticas das campanhas de um só tema estão relacionadas aos problemas teóricos, pois sugerem que há distinção a ser feita entre usos de animais quando, de fato, não há absolutamente nenhuma distinção coerente a ser feita. Um animal pode sofrer mais do que outros, ser torturado mais do que outros, ser morto mais violentamente do que outros? Sim, pode. Contudo, a questão central que precisa ficar clara é que todos os animais usados para servir os propósitos humanos na alimentação, divertimento, testes e em outras áreas sofrem, são torturados e mortos desnecessariamente.

Assim, essas campanhas se mostram estrategicamente falhas tanto no que diz respeito a ajudar *todos* os animais como também desrespeita o público por considerar que as pessoas não são capazes de entender que toda exploração animal é execrável e deveria ser rejeitada.

As grandes organizações de defesa animal promovem regularmente essas campanhas propagando a noção de que podemos ser dispensados de nossa obrigação moral individual para com os animais ao não sermos veganos e dispensados também da nossa obrigação geral fazendo menos do que promover a abolição da escravidão animal. Essas campanhas isoladas que ressaltam um ou outro uso de animais como problemático retardam cada vez mais o entendimento que as pessoas poderiam ter ao divulgarmos a mensagem do veganismo que tem como base acabar com toda exploração animal.