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Ei! Isso aí no seu panfleto é leite?

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Apreciad@s colegas:

Há 16 anos, o scholar de Direito norte-americano Gary L. Francione escreveu um livro bastante instrutivo intitulado Rain Without Thunder: The Ideology of The Animal Rights Movement (infelizmente ainda sem tradução para o Português).

Nessa obra, ele analisa cronologicamente o desenvolvimento do movimento pelos direitos dos animais nos EUA e Europa. Durante seus escritos, Francione denunciou o que vem a ser o “novo bemestarismo”, uma perspectiva com bases filosóficas, legais e econômicas, a qual assevera que certas ações de cunho incremental no tratamento dos não-humanos, poderiam levar ao fim da exploração animal. A implementação dessa proposta demonstrou-se altamente lucrativa para os produtores e notavelmente fatal aos não-humanos. Mesmo com os alertas levantados por Francione em 1996, essa abordagem propagou-se rapidamente pelos EUA, e agora chega ao Brasil com força total...

 

No último domingo (22/01), um acontecimento singular no que tange as ações em nome dos animais não-humanos ocorreu. Em mais de 150 cidades, milhares de pessoas saíram às ruas carregando faixas, banners, bandeiras e outros acessórios em uma massa popular de proporções notáveis. Os manifestantes estavam unidos sob um mesmo estandarte: a marcha da “Crueldade Nunca Mais” – movimento que reivindica uma “penalização correta e efetiva para quem comete crueldade e maus tratos aos animais”. Só na Avenida Paulista, mais de 10 mil pessoas reuniram-se para declarar sua indignação contra as ações violentas perpetuadas constantemente contra os animais. Até mesmo na pequena cidade em que habito, cerca de 200 manifestantes, caminharam em silêncio por quase dois quilômetros para demonstrar seu amor e respeito pelos não-humanos.

Muitos consideram essa uma das maiores vitórias em prol do movimento pelos direitos dos animais ocorridas no Brasil nos últimos anos. Quem não pensaria assim? Uma mobilização em escala nacional com números assombrosos e cobertura completa pela mídia especializada. Entretanto, se realmente quisermos compreender o verdadeiro significado e impacto do movimento “Crueldade Nunca Mais”, é melhor avaliarmos os bastidores das manifestações...

A WSPA (World Society For The Protection of Animals), instituição entusiasta e promotora de ações focadas no “bem-estar animal”, como o “abate humanitário” e a criação de instalações que maximizam os lucros dos grandes produtores, apoiou unanimemente a iniciativa “Crueldade Nunca Mais”. Que oportunidade melhor para vender a ideia da “carne feliz” do que em um local repleto de “pessoas contra a crueldade”?

Sejamos bastante claros. O movimento “Crueldade Nunca Mais” não é, em nenhum sentido, guiado por qualquer princípio de cunho abolicionista. Se lermos com um pouco de atenção suas propostas, perceberemos imediatamente que se trata de um projeto regulamentarista. Em outras palavras, longe de pleitear em favor da abolição da exploração animal, o movimento “Crueldade Nunca Mais” concentra seus esforços na instauração de um tratamento menos danoso aos não humanos. Porém, como sabemos, a concessão de um tratamento mais “humanitário” aos não-humanos não diz absolutamente nada sobre a legitimidade da exploração animal institucionalizada. De fato, qualquer tentativa de legislar uma proposta que beneficie os não-humanos em detrimento dos interesses econômicos dos seres humanos acaba indo de encontro às suas reivindicações legais referentes ao usufruto de sua propriedade animal, a qual, por sua vez, não possui nenhum direito. Em síntese, no que concerne a seus princípios teóricos, o movimento “Crueldade Nunca Mais” mostra-se problemático desde os seus alicerces primeiros.

Por outro lado, quando se observa cuidadosamente o aspecto prático das manifestações organizadas pelo movimento “Crueldade Nunca Mais”, subsidiadas por ONGs e instituições bemestaristas, a situação torna-se ainda mais alarmante. Pois, embora existam certos princípios jurídicos e filosóficos por detrás do movimento em pauta, não necessariamente os participantes das passeatas e comícios estavam cientes deles. De fato, se analisarmos alguns comentários publicados na internet, jornais e revistas, perceberemos diversas interpretações conflitivas no tocante às bases e objetivos de tais protestos. Por exemplo, uma grande comunidade ativista estabelecida no site de relacionamentos Facebook sustenta que a marcha “Crueldade Nunca Mais” foi “motivada pela crueldade cometida contra o Yorkshire pela Enfermeira” – caso que dominou a mídia há poucos meses e gerou uma enorme comoção entre os “protetores dos animais” do país inteiro. Se assim for, então temos um problema muito maior do que “somente” uma proposta regulamentarista de utilização animal...

As manifestações que ocorreram dia 22/01 demonstram claramente o nível de desnorteamento em que se encontra o ativismo animal no Brasil. Como bem pontua uma amiga abolicionista, as “manifestações de especismo profundo” (ou seriam as “caminhadas para tirar fotos para o Facebook?”) longe de seguir seus próprios princípios (por si só já bastante questionáveis), revelaram-se como território propício para confundir e deseducar o público sobre o veganismo. Muitos participantes, devidamente trajados com suas camisetas marcadas com slogans libertaristas, e munidos com panfletos educativos, tentaram conscientizar os espectadores acerca da importância de se adotar uma “dieta vegana”. É inegável o fato de que algumas dessas pessoas fizeram-no com as melhores intenções possíveis. Porém, o ato de categorizar o veganismo como sendo apenas uma “dieta”, ou só mais uma “ferramenta” em prol dos “não-humanos”, é altamente nocivo para a causa animal como um todo. O veganismo deve ser compreendido como a base moral inegociável de qualquer ação em prol dos não-humanos, de tal forma que sua aceitação represente o comprometimento em nível pessoal com os princípios da não-violência e do abolicionismo.

Ademais, é importante notar o fato de que, embora houvesse alguns veganos presentes, a maioria esmagadora dos manifestantes não era vegana. Ou seja, boa parte dessas pessoas opõe-se aos maus tratos aos animais domésticos, mas ao mesmo tempo é responsável pela imposição direta e constante de dor, sofrimento e morte a milhares de não-humanos anualmente. Parece-me bastante óbvio o caso de que, se fossem verdadeiras manifestações contra a exploração animal, então os participantes deveriam estar protestando contra si mesmos...

Muitos interpretam as atitudes de veganos que questionam a legitimidade de ações de indivíduos que se dizem “membros do movimento pelos direitos dos animais”, mas que ainda continuam consumindo produtos de origem animal, como sendo puristas e elitistas. A meu ver, purismo e elitismo é dizer que está tudo bem em alguém não ser vegano desde que essa pessoa carregue uma faixa em uma procissão.

Outrossim, as implicações desses protestos extrapolam o âmbito teórico e adentram a dimensão do processo deseducacional em nível prático. Diversas organizações bemestaristas surgiram após as atividades locais do movimento “Crueldade Nunca Mais”. Eu mesmo acabei presenciando o nascimento de um desses grupos, cujos membros estão ávidos por encontrar mais “aliados” e “vegs” para disseminar o “onivorismo consciente” e produtos de maquiagem “cruelty-free” entre a comunidade. Este e outros coletivos pretendem perpetuar a absurda noção de que o tratamento e não o uso dos não-humanos deve ser o foco das mobilizações de ativistas. Certamente mais uma “conquista” a ser “comemorada” pelos não-humanos abatidos...

Em última instância, embora tenham prestado um desserviço imenso aos interesses não-humanos, as manifestações supramencionadas ao menos deixaram importantes lições acerca de como não se deve tentar defender os animais e/ou alertar a população sobre suas mazelas. Em primeiro lugar, não é preciso reunir milhares de pessoas para conscientizar e educar sobre o sofrimento animal. De fato, se não há no mínimo o consenso de que o veganismo deva ser o fundamento primeiro dessa conscientização, é bastante provável que os interlocutores acabem mais confusos do que estavam antes que se inicie qualquer forma de comunicação. Além disso, não é necessário utilizar um megafone ou subir em um palanque para alertar os outros sobre a exploração animal. A educação abolicionista vegana não-violenta criativa é feita individualmente, sem líderes ou qualquer tipo de hierarquia social. Por conseguinte, se buscamos conscientizar outras pessoas sobre os horrores da escravidão animal, evidentemente não o faremos entregando um panfleto com a mão direita e um copo de leite com a esquerda.

Pois, se isso é uma “vitória”, então precisamos repensar seriamente o que almejamos com esse tal movimento pelos direitos dos animais...

Texto: Gabriel Garmendia. Mestrando em Filosofia e teórico do movimento pelos direitos dos animais.

Foto: Fábio Penna (ANIMAIS.O.S) -- Faixa na manifestação"CRUELDADE NUNCA MAIS" em 22/01/2012 - Belo Horizonte (MG)