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Crueldade, senso comum e propriedade: O equívoco fundamental dos “protetores dos animais”

porcogalinhas
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Apreciad@s colegas:

Comumente afirma-se que é errado tratar os animais com crueldade. Tal perspectiva encontra-se profundamente enraizada no senso comum partilhado pelas diversas sociedades ocidentais.Indignamo-nos e repudiamos indivíduos que maltratam cães, gatos e outros animais domésticos. Por outro lado, embora estejamos acostumados a declarar que os interesses dos animais sejam moralmente relevantes e deveriam ser respeitados, diariamente ignoramos esses mesmos interesses por razões triviais. De fato, embora supostamente proibamos práticas que resultem em sofrimento “desnecessário” a animais, acabamos não nos questionando se tais usos por si só poderiam ser considerados necessários sob qualquer prisma.

 

Porém, o princípio inalienável que nos permite utilizar os não-humanos para quaisquer fins que desejarmos é o de que eles são propriedade. Animais são coisas que possuímos, as quais não têm nenhum valor com exceção daquele que lhes atribuímos. São mercadorias que não se diferem em nenhum sentido de brinquedos, eletrodomésticos, motocicletas, ferramentas, etc. Na medida em que os não-humanos encontram-se no estado de meras posses humanas, e seus interesses estão sob o jugo das vontades dos proprietários, noções como “crueldade”, “tortura” e outras terminam unicamente referindo-se aquilo que é economicamente viável aos humanos. De fato, pressupomos que os donos de animais agirão em favor de seu próprio interesse econômico, e não infligirão nenhuma dor ou sofrimento além do necessário para alcançar um uso eficiente dos animais como recursos econômicos. Causar mais dor e sofrimento neles resultaria em danos e na diminuição do valor da propriedade animal, sem acarretar em qualquer benefício financeiro correlativo, o que seria notoriamente irracional. Enquanto utilizarmos nossa propriedade animal para gerar benefícios econômicos, não há um limite efetivo para o nosso uso ou tratamento dos animais.

Diversos grupos de defesa animal ignoram a condição de propriedade dos não-humanos e concentram-se na organização de manifestações e passeatas cujo objetivo basilar é dar fim aos maus tratos e cruezas praticadas contra os não-humanos. Todavia, ao fazê-lo, eles inevitavelmente acabam reforçando o paradigma vigente, de modo que o tratamento outorgado aos não-humanos seja foco de críticas e não a exploração/uso animal per se. Ademais, somente no Brasil, matamos bilhões de animais anualmente para consumo. Consumo o qual geralmente não recai sobre o pleito levantado pelos “protetores dos animais” quando estes atacam a “crueldade” contra os não-humanos. Os atos cruéis repudiados dizem respeito a animais domésticos como cães e gatos, os quais não representam significativamente a verdadeira e intolerável violência contra os não-humanos.

Por conseguinte, se os ditos “protetores dos animais” buscam um meio de aliviar eficientemente o sofrimento não-humano, deverão fazer campanhas pelo término da exploração/uso animal e não meramente pela adoção de um tratamento mais “humanitário”. Tendo isso em vista, o fundamento mor dos atos em prol dos não-humanos deveria ser a prática do veganismo – i.e., o boicote pessoal do consumo de produtos oriundos da exploração animal. Muito mais do que uma simples dieta ou estilo de vida, a adoção do veganismo representa o comprometimento ético em nível individual com o princípio abolicionista. A ratificação de tal postura é o mínimo de coerência moral exigido daqueles que afirmam e tencionam resguardar os interesses dos animais. Somente através de tal ação poder-se-ia dar início a uma significativa e verdadeira defesa da causa animal.

Gabriel Garmendia é mestrando em Filosofia e teórico do movimento pelos direitos dos animais