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Trocando ¨os¨ miúdos

8vacas
Gostaria de fazer um breve relato de minha jornada até o veganismo. Nasci e cresci numa família de imigrantes italianos no Brasil. Grandes festas de casamento, de natal, de ano novo, de aniversário sempre foram comuns. Nestas festas havia sempre muita fartura e animais não humanos eram cozidos, assados, fritos para saciar a nossa vontade de comer. Na casa do vizinho era comum

matar um porco no quintal na véspera de Natal. Ao ouvi-lo grunhir, era o fim do Natal para mim. Papai Noel chegava e embaixo da cama eu permanecia. A visão do porco assado na mesa da ceia era bastante peculiar, para dizer o mínimo. Afinal, aquele indivíduo, poucas horas atrás, estava alegre em pé girando o seu rabinho elegantemente desatento ao seu destino fatídico.

Naquele tempo, por volta dos anos 70, havia pouca chance de eu ter me deparado com o veganismo. As notícias eram sobre o comunismo, o socialismo, o fanatismo, o catolicismo, o terrorismo e outros “ismos”. No final dos anos 80, saí do Brasil e quando estava morando na Califórnia fui a um templo budista em Berkeley para praticar Tai Chi Chuan e sentar em meditação. Durante uma palestra sobre os cinco preceitos budistas, o monge Heng Sure disse que o preceito “não matar” não estava relacionado somente aos humanos, mas se estendia a todos os seres sencientes. Aquela informação aparentemente simples mudou a minha vida naquele mesmo instante. É claro que eu não matava animais diretamente, mas alguém os matava para eu poder me alimentar e isso era ainda pior. Não quis mais comer nenhum tipo de carne e não tive fome por três dias. Vivi feliz em estado meditativo somente me alimentando com pequenas porções de nozes e uva passa.

Voltei ao Brasil como se tivesse encontrado o tesouro perdido. Como sempre “inventei moda”, era o que meus pais diziam quando trazia alguma novidade para casa, minha família achou que era algo passageiro. Contudo, a moda não só não foi passageira, mas tornou-se permanente e cada vez mais consciente e atual. Mas o fato de não comer carne vermelha, frango, porco, peixe e frutos do mar em geral, ainda não me dava o direito de defender os animais. Mel, ovos, leite e seus derivados ainda faziam parte do meu cardápio. Sem nenhuma formação teórica resolvi, intuitivamente, adotar o veganismo. Quando conversava com as pessoas sobre isso elas diziam: “por favor, você vai ficar doente. Continue, pelo menos, a tomar leite”. Mas minha intuição era forte e assim, apesar de todas as opiniões contrárias à minha decisão, parei de consumir qualquer produto de origem animal por dois anos.

Completamente sozinha e sem nenhuma argumentação mais forte para esse meu novo “modismo” comecei, por constrangimento e achando que era um desrespeito à oferta bondosa das pessoas, a aceitar fatias de bolo não vegano, ovos e leite que me eram oferecidos quando visitava as pessoas, até que um “muito belo” dia me veio às mãos um livrinho chamado “Direitos Animais: A Posição Abolicionista” do professor Gary L. Francione. Logo na segunda página li: ”Não há nenhuma diferença entre carne e laticínios (ou outros produtos de origem animal). Os animais explorados na indústria de laticínios têm a vida mais longa do que os que são usados por sua carne, mas são mais maltratados durante aquela vida e terminam no mesmo matadouro, depois do quê consumimos a sua carne do mesmo jeito. Há provavelmente mais sofrimento num copo de leite, ou num sorvete, do que num bife.”Bingo! Era isso o que a minha intuição estava tentando me dizer e eu não conseguia decodificar essa informação logicamente, já que acredito que todas as respostas relevantes que precisamos estão contidas dentro de cada um de nós, mas o ruído externo, às vezes, é tão estonteante que não conseguimos acessar a sutileza dessas informações.

E foi assim que basicamente abracei o veganismo como filosofia de vida, pois acredito que além de não haver nenhuma justificativa substancial para usarmos os animais não-humanos em nenhuma situação e sendo a exploração dos mesmos um fato e não uma crença, me dei conta de que as visões e ações antropocentristas perpetuadas pelos humanos são errôneas e que o especismo não é um fato isolado, mas está ligado a outras formas de discriminação como o racismo, o sexismo, o heterossexismo. Desta forma, o veganismo tornou-se uma forma de ação indvidual em relação à abolição da exploração animal que, de agora em diante, gostaria de compartilhar com aqueles que têm interesse em participar do processo de aquisição de direitos daqueles que por muito tempo tem sido tratados meramente como “coisas”, abusados, torturados e mortos sendo privados de qualquer consideração moral séria.

 

 

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